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Terca, 27 de Fevereiro de 2024

Atuao do psiclogo em ambiente institucional de acolhimento

03/02/2024 as 08:00 | Fernandpolis | Por Andr Marcelo Lima Pereira
O afastamento de crianas e adolescentes de suas famlias de origem no fenmeno recente, embora seja, muitas vezes, atribudo aos atuais avanos da modernidade, desestruturao familiar, aos novos modelos de composio da famlia e problemas de ordem social (Brasil, 2006). Essas e outras circunstncias levam pais ou responsveis a buscarem abrigo em instituies assistenciais ou acolhimento por famlias substitutas pela necessidade de proteo contra a violncia (fsica, moral, subjetiva), o abandono e o descaso com as crianas e adolescentes.

Orfanatos, educandrios, santas casas, casas de misericrdia, abrigos, casas-lares e unidades de acolhimento so denominaes comuns de entidades assistenciais que tm recebido crianas e adolescentes sob seus cuidados quando so afastados da convivncia familiar e comunitria (Silva; Aquino, 2005). Embora infncia e adolescncia sejam importantes etapas no processo de formao do indivduo e do desenvolvimento humano (em vrias dimenses do ciclo vital: fsica, cognitiva, afetiva, moral, psicolgica, social, educacional), crianas e jovens tm sido negligenciados pelo atendimento inadequado s suas demandas biopsicossociais (Xavier; Nunes, 2015).

Nesse sentido, o acolhimento institucional de crianas e adolescentes pode, provisoriamente, suprir o abandono e suas carncias, mas o acolhimento em uma instituio assistencial medida protetiva de carter excepcional e provisrio, de curta durao (mximo de dois anos), enquanto os acolhidos aguardam o momento para retornar ao convvio com a famlia de origem. Na impossibilidade de retorno famlia original, opta-se pelo seu encaminhamento a uma famlia substituta, uma instituio assistencial ou adoo (Brasil, 2006, 2008, 2009).

Entre as causas da institucionalizao despontam o abandono dos pais, a negligncia, a violncia e o abuso (Brasil, 2009). Outras causas se alinham com origens diversas: fuga do lar sem paradeiro definido, famlias impossibilitadas de outorgar cuidado e proteo (higiene, alimentao), pobreza (a principal delas), descaso com a funo parental (omisso do cuidado), dependncia qumica dos pais (lcool, drogas), lar sem condies de habitao, deteno dos genitores, vivncia de rua, violncia domstica (maus-tratos fsicos e psicolgicos), orfandade, deficincia mental dos pais, baixa escolaridade, famlias numerosas, ausncia de um dos cuidadores, depresso materna (Fonseca, 2017). Em casos menos comuns, esto presentes a gravidez no planejada na adolescncia sem suporte social, pai/me com mltiplos parceiros, expectativas excessivamente altas ou irrealistas em relao criana e ao adolescente, casos de prostituio (Costa, 2016).

A institucionalizao evento estressante para crianas e adolescentes: muda o ambiente, implica alto grau de tenso e interfere no comportamento respondente dos sujeitos. Alto nvel de estresse tende a constituir-se fator de risco ao seu desenvolvimento e enseja o surgimento de ampla variedade de distrbios fsicos e mentais e adoecimento (Maia; Williams, 2005; Siqueira; DellAglio, 2006; Silva; Silva; 2022). Presente na realidade de muitas famlias brasileiras em condies de vulnerabilidades e condies socioeconmicas desfavorveis, a institucionalizao na infncia e na adolescncia interfere nas suas condies de vida e no desenvolvimento durante todo o perodo de acolhimento e deixa sequelas (Siqueira; DellAglio, 2006).

Neste universo, a rea da Sade deve contemplar o desenvolvimento infanto-juvenil e, ao prover ateno adequada s singularidades dos usurios, resguardar os direitos de sigilo, privacidade, acolhimento e ateno independentemente de consentimento familiar e/ou dos responsveis, entre outras garantias ticas (Brasil, 2014, p. 15). Silva e Silva (2022) destacam a resilincia associada ao afeto positivo como forte potencial em desfazer os efeitos fsicos e psicolgicos nocivos de situaes estressantes e relacionam o afeto negativo com distrbio subjetivo e engajamento no prazeroso no ajuste psicossocial. Delvan, Becker e Braun (2010, p. 350) veem na resilincia um processo para superar as adversidades e adaptar-se ao contexto de forma saudvel. Isto implica construir ambientes de apoio e condies em que familiares, responsveis, profissionais de sade e de setores correlatos assumam condutas de abertura ao dilogo, de comunicao eficiente e de construo compartilhada de saberes, de acolhida s dvidas e de suporte emancipao gradual e responsvel das crianas e adolescentes (Brasil, 2014).

Para Fava e Pacheco (2017), alguns desses eventos estressantes (os maus-tratos, v.g.) so fatores de risco associados a psicopatologias do desenvolvimento da criana ou do adolescente. Maus-tratos e violncia, diversas formas de abuso (o abuso sexual o mais frequente), agresso fsica e psicolgica e negligncia provocam efeitos profundamente severos no curso de suas vidas, vindo relacionados a problemas de sade mental e prejudicando o desenvolvimento infanto-juvenil.

Para Maia e Williams (2005, p. 92), nenhum outro fator de risco tem uma associao mais forte com a psicopatologia do desenvolvimento do que uma criana maltratada. As sequelas, geralmente traumatizantes, alcanam vrios domnios do desenvolvimento, como cognio, linguagem, desempenho escolar, desenvolvimento psicomotor e socioemocional. Crianas e adolescentes institucionalizados, quando maltratados, tendem a expressar dficit de habilidades no desenvolvimento, lacunas na manuteno do afeto, da empatia, de interesses e no seu comportamento habitual (Maia; Williams, 2005). Podem, tambm, expressar carncia de autoestima, comportamentos transgressores e agressivos (Barros; Silva, 2006; Pesce, 2009; Fava; Pacheco, 2017), sofrer graves prejuzos em seu desenvolvimento biopsicossocial (cognitivo, afetivo e social), sem garantias sua proteo, expondo-os violncia institucional (Andrade; Carvalhaes; Silva, 2023).

As principais manifestaes de comportamento de crianas e adolescentes institucionalizadas, destacados por Maia e Williams (2005), incluem: desordem emocional ou comportamental por violncia fsica (maus-tratos corporais), negligncia e privao de necessidades essenciais, violncia psicolgica (ameaas, humilhaes, privaes emocionais, exposio violncia conjugal) e violncia sexual (abuso, prostituio). Siqueira et DellAglio (2006) aventam a possibilidade de prejuzo aumentado por um ambiente institucional com poucas possibilidades de interao entre cuidadores e crianas/adolescentes e de impacto disruptivo imediato que provoca fortes impactos psicolgicos e sociais para os assistidos.

Na mitigao dos efeitos danosos da separao compulsria de crianas ou adolescentes e suas mes/pais, merece destaque a figura de pessoa conhecida (ou de objetos familiares) no novo ambiente (Silveira, 2021; Pontes; Braga; Jorge, 2022). Maia e Willians (2005) apontam trs fatores que contribuem para a proteo desses sujeitos: atributos disposicionais (autonomia, orientao social positiva, autoestima, preferncias), caractersticas da famlia (afetividade, ausncia de conflitos ou de negligncia) e fontes de apoio individual ou institucional (relacionamentos, suporte social e cultural, atendimento individual mdico e psicolgico, instituio religiosa).

Para Cardoso (2019) e Barbosa, Antunes e Camargo (2022), a reinsero da criana ou do adolescente na famlia de origem, todavia, pode ser dificultada pelo desinteresse de parentes em assumirem a guarda. Com isso, a permanncia na instituio de acolhimento sem uma expectativa real de sada pode alongar-se por anos e, medida que a criana cresce, diminui a possibilidade de reinsero na famlia de origem ou de adoo, haja vista que, no Brasil, a maioria das pessoas ainda prefere a adoo de bebs ou crianas pequenas (Lima, 2021). Cabe aos espaos institucionais oferecer diferentes servios de acolhimento segundo as necessidades de cada criana e adolescente, de modo profissional, no intuitivo, ou seja, preciso construir com clareza um projeto de atendimento e regresso famlia e sociedade.
Dependendo do impacto das situaes de risco na vida do indivduo ou da famlia, existe uma hierarquizao dos servios de proteo que, conforme o Sistema nico de Assistncia Social (SUAS, 2018), se distribuem em bsico, especial de mdia e alta complexidade. As instituies de acolhimento se emolduram na proteo especial de alta complexidade, com acolhimento classificado como servio de Proteo Social Especial de Alta Complexidade. Uma instituio de acolhimento deve garantir a proteo integral (moradia, alimentao, higiene, segurana, educao, sade) a crianas e adolescentes em situao de ameaa, negligncia ou violncia (Fonseca et al., 2020, p. 75). Assim, ao abrigar crianas e adolescentes, a instituio deve garantir sua integridade fsica e psquica e assegurar a manuteno dos vnculos familiares e comunitrios, em especial, os vnculos afetivos com as figuras parentais para um desenvolvimento saudvel da criana (Brasil, 2006, 2009).

Ao retornarem s suas famlias nucleares, o tempo de permanncia na instituio deixa marcas impactantes na criana ou adolescente que podem ter seu desenvolvimento social, cognitivo e emocional comprometido pelo afastamento familiar (sentimento de insegurana, medo, ansiedade, impasses de relacionamento) ou pela insatisfatria qualidade da assistncia ofertada (Siqueira; DellAglio, 2006; Diniz; Assis; Souza, 2018; Silveira, 2021). Crianas institucionalizadas precocemente sofrem significativos danos fsicos e mentais (Lima et al., 2018), cujos sintomas tpicos das experincias da institucionalizao incluem, dentre os mais comuns: relacionamento superficial, pouco sentimento verdadeiro, falta de interesse por pessoas ou por construir e manter amizades profundas, inacessibilidade, irritao para os que tentam ajud-las, pouca reao emocional em situaes em que isto seria normal, despreocupao com tudo (especialmente com a vida), falsidade e frequentes evasivas imotivadas, furtos constantes, dificuldades de concentrao escolar.

Uma institucionalizao por perodo prolongado impacta fortemente a vida dos abrigados e interfere na sociabilidade e manuteno de vnculos afetivos quando chegam vida adulta (Siqueira; DellAglio, 2006; Andrade; Carvalhaes; Silva, 2023). A institucionalizao ocupa espaos vazios deixados pelo abandono de familiares e amigos prximos que atribuem instituio a responsabilidade pela custdia e educao dessas crianas e adolescentes; gera dficit intelectual pela insuficiente oferta (ou oferta empobrecida) de estmulos educativos e de desenvolvimento geral; induz distrao e dificuldades de aprendizagem, agressividade, problemas emocionais e de comportamento, dificuldade em criar laos afetivos durveis, vnculos e apego a algum (Rocha; Maciel; Cassol, 2021; Rosa; Bridi; Bridi Filho, 2022).

Essas instituies so responsveis por zelar pela integridade fsica e emocional de crianas e adolescentes que foram desassistidas e tiveram seus direitos violados (Silva; Aquino, 2005). Todavia, nem sempre representam o melhor ambiente de desenvolvimento, porque o atendimento padronizado, o alto ndice de criana por cuidador, a falta de atividades planejadas e a fragilidade das redes de apoio social e afetivo so alguns dos aspectos relacionados aos prejuzos que a vivncia institucional pode operar no indivduo (Carvalho et al., 2015, p. 60). Siqueira e Dellaglio (2006) salientam, contudo, que, pelas oportunidades do atendimento oferecidas em uma instituio, diante dos casos de situaes ainda mais adversas na famlia ou no ambiente social permeadas por violncia e exposio a riscos os mais variados, o acolhimento institucional pode ser a melhor opo.

A infncia considerada a fase mais importante no curso da vida de uma pessoa: nesta fase, a criana d incio e sequncia ao desenvolvimento cognitivo, biolgico e psicossocial (Xavier; Nunes, 2015). Alm disso, a criana vive diferentes condies ambientais, essenciais para seu desenvolvimento, e necessita de proteo e afeto (Fonseca, 2017), garantia de direitos ( vida, sade, alimentao, educao, lazer, profissionalizao, convivncia familiar e comunitria), cuja efetividade deve ser proporcionada em parceria da famlia com o Estado e a sociedade, dentro de um ambiente seguro e satisfatrio (Brasil, 2008).

No entanto, as violaes de seus direitos e garantias e as consequncias da institucionalizao sobre o desenvolvimento so fortes e imprevisveis em todas as dimenses biolgica, humana, individual e social, psquica, de relacionamentos etc. (Siqueira; DellAglio, 2006). Uma de suas mais relevantes consequncias est associada ruptura de vnculos e a situaes de violncia, apontadas como eventos estressantes de vida e possvel fator de risco ao desenvolvimento nestas fases, com resultados indesejveis como a depresso (Fonseca 2017).

Outra consequncia marcante da institucionalizao de crianas e adolescentes expressa pela dificuldade de retorno famlia e comunidade: com o tempo prolongado na condio de acolhidos, os laos afetivos se fragilizam e as referncias desaparecem (Siqueira; DellAglio, 2006; Aguiar; Carrero; Rondina, 2007). Quebrados os elos familiares e comunitrios com o afastamento, as alternativas se tornam cada vez mais restritas, e os acolhidos tm grandes chances de apresentar problemas de socializao e manuteno de vnculos afetivos quando adultos, uma vez que os danos causados pela institucionalizao sero tanto maiores quanto maior for o tempo de espera, que interfere no s na adaptao em caso de retorno famlia de origem, como nos casos de insero em famlia substituta (Silva, 2004, p. 64).

Rotos os laos afetivos, os percursos de vida perdem contatos valiosos, os caminhos se estreitam e a desconexo familiar e social se agrava: diante de uma reintegrao familiar e social pouco provvel, essas crianas e adolescente so transferidos de uma instituio a outra, tendo, como resultado, dificuldade de acreditar que seja possvel qualquer mudana. A excluso da famlia gera abalos exponenciais s crianas e jovens, grande impacto no desenvolvimento emocional (desordem emocional) e social, efeitos negativos no contexto escolar (como fracasso escolar) e outros prejuzos na vida pessoal (Souza; Panncio-Pinto; Fiorati, 2019).

O grupo familiar tem papel fundamental na constituio dos indivduos, na determinao e organizao da personalidade; influencia, de modo significativo, no comportamento individual pelas aes, exemplos e medidas educativas veiculadas no mbito familiar (Pratta; Santos, 2007). Tambm responsvel pelo processo de socializao primria ao estabelecer normas e limites para as relaes interpessoais, promovendo adaptao das pessoas s exigncias do convvio em sociedade. na dinmica familiar que, em comunho com outros ambientes, se estabelecem os vnculos mais duradouros, os embates, as rupturas e as reconciliaes, os insucessos e as superaes, as aproximaes e os ajustes que contribuiro para a sua formao na vida adulta. As experincias genunas vivenciadas pela criana e pelo jovem em termos de afeto, dor, medo, raiva e inmeras outras emoes vo possibilitar o aprendizado essencial para sua atuao futura (Pratta; Santos, 2007). Aps a infncia, a adolescncia, perodo evolutivo crucial para o desenvolvimento, culmina com o processo maturativo biopsicossocial, aquisio da imagem corporal definitiva e estruturao final da personalidade (Pratta; Santos; 2007).
Maia e Williams (2005) advertem, porm, que, diariamente, crianas e jovens so submetidos, em seus prprios lares, a srias condies de riscos e prejuzos a seu desenvolvimento, como violncia domstica (fsica e psicolgica), castigos deprimentes, imposies fsicas aviltantes, negligncia, abandono, prostituio, falta de higiene e outros fatores de risco, transformando a realidade da infncia e adolescncia em um desafio a ser enfrentado pela sociedade. Parra, Oliveira e Maturana (2019) admitem existir, tambm no abrigo, um paradoxo entre proteo e risco, facilitador e empecilho do desenvolvimento dos albergados: por mais que seja um local destinado a acolher, assistir e proteger, h evidncias de fatores de risco e impactos negativos presentes na institucionalizao, como dficits, dificuldades de adaptao, agressividade excessiva e insurgncias e, sobretudo, carncia de afetos.

A separao um momento delicado e, com frequncia, traz desordem na rotina, confuso nos pensamentos, mudanas na vida social e interfere na formao da personalidade, ainda incompleta, da criana ou do adolescente (Xavier; Nunes, 2015). Maia e Williams (2005) acentuam que a violncia psicolgica (ameaas, humilhaes, privao emocional) pode conduzir ao suicdio, morte, danificao de propriedade, agresso vtima ou a seus entes queridos, mormente com prejuzos nos pensamentos intrapessoais (medo, baixa estima, sintomas de ansiedade e depresso, ideaes suicidas), na sade emocional (instabilidade, dificuldades em controlar impulso e raiva, abuso de substncias), nas habilidades sociais (baixa competncia social, problemas de apego, pouca simpatia e empatia, delinquncia e criminalidade), no aprendizado (fracasso escolar, prejuzo moral) e na sade fsica (queixa somtica, falha no desenvolvimento, alta mortalidade). Dependendo do estgio de desenvolvimento da criana ou do jovem, a violncia psicolgica varia em severidade, intensidade, gravidade, frequncia, cronicidade e apaziguamento. Para Fava e Pacheco (2017), o abuso emocional refere agresses verbais e situaes humilhantes que diminuem o senso do valor e bem-estar da criana e do adolescente.

Os servios de acolhimento a crianas e adolescentes integram os Servios de Alta Complexidade do Sistema nico de Assistncia Social, tenham eles natureza pblico-estatal ou no. Devem acolher uma perspectiva da proteo integral pautada na Constituio Federal Brasileira, nos pressupostos do Estatuto da Criana e do Adolescente, nas Orientaes Tcnicas: Servios de Acolhimento para Crianas e Adolescentes e diretrizes emanadas por elaboraes correlatas como a Norma Operacional Bsica do SUAS (Brasil, 2006, 2009; SUAS, 2018; Fonseca et al., 2020).

Em que pese o apangio de proteo e resguardo integridade dos direitos e peculiaridades infanto-juvenis, a institucionalizao, muitas vezes, atravessa a trajetria de vida desses sujeitos e interfere diretamente nos seus relacionamentos interpessoais e habilidades, na organizao psquica e na formao (ou destituio) de vnculos, gerando impactos nem sempre positivos na esfera psquica e emocional. O rompimento do poder familiar na infncia ou na adolescncia expe uma relao intrnseca com sndromes psiquitricas e sintomas associados, com a personalidade psictica, a depresso, a delinquncia e o suicdio (Diniz; Assis; Souza, 2018). Alm de no terem supridas suas necessidades afetivas, essas crianas e adolescentes so privadas de lazer e comunicao com o ambiente externo, vivenciam apenas o contexto da instituio sem identific-la como um lugar agradvel, mas onde so obrigadas a permanecer. Logo, um abrigo pode configurar-se como fator de risco para o desenvolvimento socioafetivo da criana e do jovem.

nessa complexidade de aspectos multifacetados da institucionalizao de crianas e adolescentes que o psiclogo deve atuar com a equipe multidisciplinar (CFP, 2016; Diniz; Assis; Souza, 2018). Como o SUAS relativamente novo (Brasil, 2009), ainda esto em construo orientaes e referncias tcnicas, normativas e marcos legais de seus equipamentos. A escassez de diretrizes bem delineadas e de materiais de orientao relacionados atuao do psiclogo nas unidades de acolhimento institucional amplia dificuldades e desafios no desempenho de seu trabalho e aporta impactos nas relaes entre essas instituies e a prestao de um trabalho interdisciplinar (CRP, 2021). Todavia, sua atuao favorecer o enfrentamento das situaes vividas pelas crianas e jovens e receber suas famlias e equipe tcnica da instituio em ambiente afetivo e acolhedor (Aguiar; Carrero; Rondina, 2007).

O CFP (2016) compila os parmetros atuais das atribuies do psiclogo nas instituies de acolhimento a crianas e adolescentes no mbito do SUAS: proporcionar espao de escuta aos profissionais do acolhimento, auxili-los na compreenso das situaes cotidianas da instituio e propor possveis intervenes para os momentos mais crticos com os usurios; participar da construo de rotinas adequadas s caractersticas do pblico atendido; contribuir para minimizar o adoecimento psquico das equipes e para a qualificao do atendimento ao usurio; articular a rede de servios para garantir o atendimento aos acolhidos, abrir espaos de interlocuo de saberes com os profissionais das diversas reas; atuar para o fortalecimento de vnculos entre usurios e comunidade, estimular as atividades externas; considerar a condio de vulnerabilidade, risco pessoal e rompimentos afetivos dos acolhidos; preservar um olhar atento sobre as particularidades da histria individual que lhe possibilite intervenes singulares a cada sujeito.

Silva et al. (2015) acentuam, ainda, a competncia do psiclogo em apoiar a equipe tcnica a realizar um trabalho interdisciplinar com as famlias e a comunidade da criana e do adolescente visando manter uma convivncia social saudvel; estabelecer contato e parcerias com a rede socioassistencial; abrir oportunidades de interao para reintegrao e retorno ao ncleo familiar, com garantias de direitos e proteo. O psiclogo deve colocar-se como mediador da criana com a instituio, a famlia e a comunidade (CFP, 2007, 2021) e comprometer-se a capacitar e instrumentalizar a equipe (Aguiar; Carrero; Rondina, 2007; CFP, 2016).

Moreira e Paiva (2015) e Gomes (2016) confirmam que o trabalho do psiclogo em instituio de acolhimento de crianas e jovens se direciona a promover um trabalho entre crianas/jovens, famlias e sua rede de suporte social. Na instituio de acolhimento, deve participar do processo de integrao e insero no grupo da instituio; promover, de forma multidisciplinar, um ambiente relacional facilitador da recepo e integrao das crianas/jovens e seu contato com a realidade do seu dia a dia; participar de reunies peridicas com a equipe tcnica, avaliar e acompanhar o percurso individual de cada acolhido; elaborar e implementar atividades formativas dos educadores; fazer avaliaes psicolgicas peridicas e traar linhas de orientao e interveno; realizar acompanhamento psicossocial dos acolhidos e suas famlias; oferecer apoio psicolgico, aconselhamento e diagnstico das necessidades e encaminhamento; promover a soluo de conflitos; participar das entrevistas com as famlias e de visitas domiciliares; participar dos momentos de convvio com as famlias dos acolhidos; assistir a equipe multidisciplinar no processo de desvinculao de crianas e jovens; orientar e acompanhar a sada da instituio.

Ressalta-se que as ligaes afetivas, internas ou externas, formadas a partir do contexto da instituio, desempenham papel vital e constituem fator de proteo no desenvolvimento infanto-juvenil (Maia; Williams, 2005). Em casos de retorno famlia de origem, importante o apoio social, mediado pelo psiclogo, como instrumento positivo de transformao calcado pela relao solidria de ajuda e criao de condies favorveis ao enfrentamento de situaes opressivas ou de dificuldades, construindo um sentimento de pertena alicerado nos laos de afetividade (Barbosa; Antunes; Camargo, 2022, p. 13).

A atuao do psiclogo requer um olhar crtico, contextualizado, e uma prxis que suavize as marcas da violncia fsica (leses, coero, seduo, abuso e explorao sexual) e psicolgica ou emocional (danos autoestima, identidade, ao desenvolvimento: rejeio, humilhao, constrangimento, ameaas, discriminao, desrespeito, objetificao, abandono, negligncia) trazidas pela histria dos acolhidos (Aguiar; Carrero; Rondina, 2007; Silva et al., 2015; CFP, 2016). imperioso que as estratgias construdas ofeream s crianas e adolescentes um clima e cuidados facilitadores do seu desenvolvimento integral, superao de vivncias de separao e violncia, apropriao e ressignificao de sua histria de vida, fortalecimento da cidadania, autonomia e insero social (Brasil, 2009; Silva et al., 2021).

Pinheiro, Campelo e Valente (2022) destacam que a equipe tcnica (em particular, o psiclogo em interface com o assistente social) deve trabalhar a criana e o jovem no sentido de planejar estratgias possveis para a sada do acolhimento, retorno famlia e insero autnoma na vida adulta. um trabalho que demanda aes de preparao para o trabalho, continuidade dos estudos, vida em liberdade e fortalecimento gradativo da autonomia, habilidades, aptides e competncias de acordo com o processo de desenvolvimento nas diferentes faixas etrias.

A prtica da psicologia nas instituies de acolhimento foca o fortalecimento identitrio e vnculos familiares dos acolhidos por meio da promoo de atividades ldicas, conversas individuais e em grupo (Silva et al., 2015; Barbi, 2021). O psiclogo tem como principais desafios os impasses advindos da intersetorialidade entre os mecanismos da rede de Assistncia Social e os limites de atuao inerentes profisso (Barbi, 2021) e a ausncia de referenciais especficos para suas prticas, o que, de certo modo, inviabiliza uma padronizao do atendimento segundo o SUAS. A atuao do psiclogo nesse ambiente busca a mudana social pela conscientizao de seus integrantes para situar-se no lugar que ocupam na sociedade (Barbi, 2021).

Na relao com o acolhido, o psiclogo participa da construo de aes do Plano Individual de Acolhimento, permite espaos para reflexo e compreenso do indivduo como sujeito de direitos segundo as peculiaridades de seu ciclo de vida e as circunstncias que o conduziram ao acolhimento, propondo estratgias na perspectiva de superar violaes. Como membro da equipe tcnica, deve contribuir para garantir espaos de acolhida, formao e reflexo dos trabalhadores do servio na compreenso das especificidades dos vnculos estabelecidos no acolhimento, marcado pela transitoriedade (CRP, 2021). , ainda, dever do psiclogo resguardar-se de julgamento moral e imposio de regras ao sujeito de direitos, alm de seguir as determinaes do Cdigo de tica Profissional do Psiclogo e Orientaes Tcnicas para o Servio de Acolhimento (CFP, 2016, p. 30).
O Cdigo de tica Profissional do Psiclogo (CFP, 2014, Art. 1, alnea C) prope como um dever fundamental do psiclogo: Prestar servios psicolgicos de qualidade, em condies de trabalho dignas e apropriadas natureza desses servios, utilizando princpios, conhecimentos e tcnicas reconhecidamente fundamentados na cincia psicolgica, na tica e na legislao profissional. Isto significa que o psiclogo no atua apenas para suprir as fragilidades da rede ou da precariedade da assistncia ofertada, mas atua para mediar, articular e potencializar o trabalho em rede pela atuao multi e interdisciplinar, imprescindvel garantia de direitos das crianas e adolescentes. No lhe permitido utilizar seu conhecimento e prticas psicolgicas como instrumentos de castigo, tortura ou qualquer forma de violncia, devendo pautar seu trabalho no respeito e na promoo da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, bem como promover a sade e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades (CFP, 2014, p. 7), assim contribuindo para eliminar quaisquer formas de negligncia, discriminao, violncia, explorao, crueldade e opresso (CFP, 2014; CFP, 2021).

O trabalho do psiclogo sobremaneira importante nas instituies que acolhem crianas e adolescentes, quer na avaliao das crianas, adolescente e suas famlias, quer nos reflexos sobre as mudanas para reinseri-los no lar de origem e na comunidade, preservar vnculos familiares e comunitrios e proporcionar treinamentos e suporte psicolgico equipe tcnica. No trabalho com a equipe, o psiclogo auxilia na elaborao e manejo das aes e atividades a serem implementadas e contribui com orientaes e capacitaes de cuidadores, gestores e equipe. Acrescentam-se, ainda, as intervenes que favoream a melhor organizao da famlia para lidar com as dificuldades e os problemas existentes (Diniz; Assis; Souza, 2018).

pertinente e necessrio que o psiclogo e componentes da equipe tcnica devotem um olhar integrativo e sistmico para a soma de foras em benefcio das crianas e adolescentes institucionalizados, para que se tornem capazes de transformar sua prpria histria de vida e o meio social de sua insero (Silva et al., 2015). Esta perspectiva a demarca uma viso integradora e contextual que reflita a atuao interdisciplinar do psiclogo no acolhimento desses sujeitos dentro da instituio e na recuperao, fortalecimento e manuteno dos vnculos familiares e comunitrios. O psiclogo no atua sozinho em contexto institucional de abrigamento, mas em trabalho interdisciplinar (Aguiar; Carrero; Rondina, 2007), cujo foco prioritrio o bem-estar de crianas e adolescentes (vtimas dos maus-tratos) e suas famlias, de forma a evitar que danos ainda maiores lhes possam sobrevir no futuro.

REFERNCIAS

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