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Sexta, 29 de Setembro de 2023

SUICDIO: di o corpo, di o peito, di a alma

09/09/2023 as 19:00 | Fernandpolis | Andr Marcelo Lima Pereira
O suicdio impacta as populaes mais vulnerveis do mundo e altamente prevalente em grupos marginalizados e discriminados da sociedade. Pode no referir um problema grave de sade pblica nos pases desenvolvidos: na verdade, a maioria dos suicdios ocorre onde os recursos e servios, quando existem, so, muitas vezes, escassos e limitados para identificao precoce, tratamento e apoio s pessoas necessitadas (CFP, 2013; WHO, 2014; FERREIRA et al., 2018). Em esfera global, a maioria das mortes por suicdio tem ocorrido em pases de rendimento baixo e mdio (79%), onde vive a maior parte da populao mundial (84%). Em relao idade, mais da metade (52,1%) dos suicdios globais tem ocorrido antes dos 45 anos, e a maioria dos adolescentes que morreram por suicdio (90%) eram de pases de baixa e mdia renda (WHO, 2019). Estes fatos, acrescidos da falta de intervenes preventivas, fazem do suicdio um problema de sade pblica global devido aos impactos econmicos e psicossociais que produz no seio das comunidades e que precisa ser combatido de forma mais assertiva.

Segundo estimativas da Organizao Mundial da Sade (OMS), o suicdio constitui uma das principais causas de morte no mundo. Anualmente, o nmero de pessoas que morrem por suicdio maior do que por HIV, malria, cncer de mama ou guerras e homicdios. De acordo com a OMS, em 2016, cerca de 804.000 pessoas morreram por suicdio em todo o mundo, a mostrar uma morte a cada 40 segundos e 10 a 40 tentativas de suicdio para cada morte por suicdio, a depender da regio do planeta (WHO, 2019a; SILVA; MARCOLAN, 2021).Em 2019, uma em cada 100 mortes ocorreu por suicdio, o que levou a OMS a produzir alertas e novas orientaes na expectativa de auxiliar os povos a melhorarem a preveno do suicdio e atendimento (OPAS, 2021).As taxas variam entre pases, entre regies e entre homens e mulheres (PENSO; SENA, 2020).

No Brasil, a World Health Organization (WHO, 2019b) indica ter havido um aumento de 7% na taxa de suicdio, principalmente entre adolescentes, sendo a quarta maior causa de mortes de jovens de 15 a 29 anos de idade no pas (MS, 2021)e a segunda no mundo, depois de acidentes no trnsito, tuberculose e violncia interpessoal (OPAS, 2021).Segundo Ribeiro et al. (2018),em 2012, no Brasil, foram registradas 11.821 mortes e, entre 2000 e 2012, houve um aumento de 10,4% nestes bitos (17,8% entre mulheres e 8,2% entre os homens).Em 2018, foram registradas 12.733 mortes por suicdio, ou seja, 35 mortes por dia, uma morte a cada 41 minutos, com taxa de 6,1 suicdios para cada 100.000 habitantes, o maior nmero absoluto de suicdios no mundo(SILVA; MARCOLAN, 2022) dados que colocam o Brasil no oitavo lugar em nmero de suicdios no mundo.

No Brasil no se tem um programa de vigilncia ao comportamento suicida, e os dados a respeito no so confiveis, quer pela notria subnotificao do comportamento suicida no sistema de sade, quer pelo mascaramento de dados como em casos de atendimentos de urgncia em prontos-socorros que acabam diagnosticados como intoxicao endgena, ferimento por arma de fogo ou arma branca e acidente automobilstico, quer porque os sobreviventes familiares, por vergonha ou devido ao julgamento moral, escondem a causa real dos eventos. Isto acaba por refletir nos dados oficiais fornecidos a OMS: apontam uma enganosa baixa taxa de suicdios na populao brasileira, 5,8 por 100 mil habitantes (MARCOLAN, 2018).

Minayo (2007, p. 311) esclarece que o suicdio e seus desdobramentos (tentativas, ideao, comportamento autopunitivo) se encontram entre as dez principais causas de bito no mundo e a principal causa de morte violenta: em termos globais, a mortalidade por suicdio aumentou em 60% no mundo nos ltimos 45 anos, sendo as taxas referentes a adolescentes e idosos aquelas que mais tendem a crescer. Entre os jovens, o suicdio constitui a segunda ou terceira causa de morte em muitos pases. Para Bezerra et al. (2022), Esses dados revelam um cenrio preocupante e multifacetado e mostram a necessidade de investigaes sistematizadas que favoream o agenciamento adequado de estratgias de interveno.

Estima-se que, no mundo, mais de 700 mil pessoas morram por suicdio anualmente. um fenmeno complexo e multicausal que impacta o indivduo e a coletividade, podendo afetar indivduos de diferentes origens, sexos, culturas, classes sociais e idades. Est vinculado a uma gama de fatores, que cursam aqueles de natureza sociolgica, econmica, poltica, cultural, passando pelos fatores psicolgicos e psicopatolgicos, at biolgicos (MS, 2021; WHO, 2023). A imensa maioria das pessoas que tenta ou realiza o suicdio acometida por algum transtorno mental, sendo o mais comum a depresso.

O termo suicdio (do latim: sui si mesmo, e cdere matar) aponta para a necessidade de se buscara morte como ltimo refgio para o sofrimento que se julga insuportvel: isto no significa um ato de coragem ou de covardia, mas de desespero. Trata-se de ao voluntria ou ato deliberado com o intuito de fazer cessar a prpria vida (PENSO; SENA, 2020), isto , com a inteno de se matar, de forma consciente e intencional, usando meios que o sujeito acredita serem letais, aps certo grau de reflexo, planejamento e ao: a morte significaria o fim de tudo, dos sofrimentos psquicos, transtornos psiquitricos, desesperana, frustraes, desencantos etc.(SCAVACINI, 2018; ANGLICO, 2022).

Neste invlucro, tambm faz parte o que habitualmente se chama de comportamento suicida, que inclui os pensamentos, os planos e a tentativa de suicdio(BOTEGA, 2014; SILVA; MARCOLAN, 2021), ou seja, abrange a ideao, o planejamento, a tentativa e o suicdio (MARCOLAN, 2018). A prevalncia desse comportamento na populao brasileira ao longo da vida mostra que 17% das pessoas pensaram, em algum momento, em tirar a prpria vida. Uma tentativa de suicdio o principal fator de risco para outra tentativa (recidiva) e para o prprio suicdio: acredita-se que cada morte de adulto cometida corresponda a at vinte tentativas; entre seis a dez pessoas so afetadas diretamente pela perda, com prejuzos emocionais, sociais ou econmicos fenmeno que impacta no apenas os sobreviventes, familiares e pessoas prximas vtima, mas tambm a comunidade como um todo (MARTINS; GUERRA, 2019, p. 47).

O suicdio se realiza por diversos meios letais, como o uso de armas brancas e de fogo, enforcamento (prticas mais comuns entre os homens), ingesto de frmacos ou de substncias letais (intoxicao exgena, mais comuns entre as mulheres) como pesticidas, uso abusivo e prolongado de lcool e drogas, prtica de atividades que coloquem a vida em risco, descuidos com a prpria sade ou mesmo uma vida sexual promiscua (RIBEIRO; MOREIRA, 2018; MELO et al., 2018; ARRUDA et al., 2021).Botega (2014) admite que, no Brasil, a prpria casa o cenrio mais comum de suicdios (51%), seguido pelos hospitais (26%), sendo os principais meios utilizados o enforcamento (47%), armas de fogo (19%), envenenamento (14%) e precipitao de altura (queda). Arruda et al. (2021) ressaltam que, alm dos hospitais como local de grande ocorrncia do evento, o domiclio surge como principal ambiente de escolha para o ato suicida devido facilidade de acesso aos meios necessrios para consumao do ato, entre os quais esto substncias txicas, medicamentos, venenos como chumbinho e o enforcamento.

A Associao Brasileira de Psiquiatria (ABP, 2014, p. 9)conceitua o suicdio como um ato deliberado executado pelo prprio indivduo, cuja inteno seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal. Tambm fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicdio. Trata-se de um comportamento com determinantes multifatoriais, resultante de uma complexa integrao de fatores psicolgicos, biolgicos/orgnicos, genticos, socioculturais e ambientais (MARCOLAN, 2018). Assim, o suicdio representa o desfecho de uma srie de fatores conjugados ou interligados, que se acumulam na histria de vida do indivduo, no tendo, portanto, forma casual e simplista: consequncia de um processo complexo, que no vem associado a acontecimentos pontuais da vida do sujeito. Afeta familiares, amigos e comunidades, e gera impactos desestruturantes sobre as pessoas que fazem parte dos vnculos sociais do indivduo (MARCOLAN, 2018; ARRUDA et al., 2021; SILVA; MARCOLAN, 2021).

Qualquer que seja a definio adotada, o suicdio designa um ato humano, deliberado, intencional de infligir a si prprio o fim da vida: a inteno de morrer o elemento-chave (MINAYO, 2007, p. 312). No entanto, torna-se difcil precisar o pensamento e a vontade das pessoas que se auto eliminam, mesmo quando deixam claras suas intenes antes de morrer.

Minayo (2007) e WHO (2014) estabelecem as diferenas entre os conceitos ligados ao suicdio: a) suicdio fatal: ato humano de tirar a prpria vida as taxas globais evidenciam dois picos: a faixa de 15 a 35 anos de idade e idosos acima de 75 anos; b) tentativa de suicdio: ato de buscar a prpria morte, sem a consumao; mais frequente entre jovens, todavia, entre idosos existe uma relao mais prxima das tentativas com os atos consumados, c) ideao (pensamento) suicida: ocorre, geralmente, quando o ser humano enfrenta situaes extremamente difceis, conflituosas e dolorosas; torna-se problemtica quando o sujeito imagina que sua vida perdeu o sentido mais frequente entre adolescentes, populao idosa e determinados grupos profissionais, como mdicos, policiais e agricultores; d) comportamento autopunitivo: ato de se infligirem danos voluntariamente, como ferir-se de propsito, causar leso a seu corpo, ficar sem se alimentar, entre outros a autopunio constitui srio problema para a famlia e para a pessoa, exige cuidados que tm custos elevados, mais frequente jovens e pessoas com baixa capacidade intelectual (autista) ou com dificuldades de comunicao, dficit de ateno, hiperatividade, ou com desordem na organizao do pensamento e problemas visuais.

Botega (2014, p. 232) assume que vrios fatores socioculturais e econmicos parecem se associar a [...] altos ndices [de suicdio], bem como elevada frequncia de sofrimento mental e de uso abusivo de bebidas alcolicas, embora, no Brasil, dados sobre mortalidade por suicdio derivem de informaes constantes de atestados de bitos compiladas pelo Sistema de Informao de Mortalidade (SIM) do Ministrio da Sade (MS) e quase sempre subestimados ou subnotificados. Alm disso, as causas de um suicdio (fatores predisponentes) so mais complexas que um acontecimento recente, como perda do emprego ou rompimento amoroso (fatores precipitantes do ato suicida), estando, na maioria dos casos, associadas existncia de um transtorno mental.

importante considerar que os fatores predisponentes ao suicdio no atuam isoladamente nem so preditores efetivos do suicdio, mas as consequncias que deles derivam podem ampliar a vulnerabilidade das pessoas ao comportamento suicida. Esses fatores incluem: isolamento social, abandono, exposio violncia intrafamiliar (especialmente entre adolescentes),histria de abuso fsico ou sexual, transtornos de humor e personalidade, doena mental, impulsividade, estresse, uso de lcool e outras drogas, presena de eventos estressores ao longo da vida, dficit no suporte social, sentimentos de solido, desespero e incapacidade, presena de suicdio de um membro da famlia (o sujeito pode tentar repetir o ato suicida, o que caracteriza a transgeracionalidade do comportamento suicida), pobreza (essa vulnerabilidade pode predispor ao suicdio, porque o desemprego, o estresse econmico e a instabilidade familiar aumentam os nveis de ansiedade dos indivduos), decepo amorosa, homossexualismo no aceito ou no compreendido, bullying, controle externo, oposio familiar a relacionamentos sexuais, condies de sade desfavorveis, baixa autoestima, rendimento escolar deficiente, dificuldade de aprendizagem, dentre outros (BOTEGA et al., 2009; BRAGA; DELLAGLIO, 2013; BOTEGA, 2014).

Os sintomas que antecedem ao ato so similares aos sintomas da depresso, dos transtornos mentais, do estresse ps-traumtico. Envolvem fatores clnicos, sociodemogrficos, genticos, fsicos e psicolgicos (dormncia fsica, anestesia emocional, desprendimento da realidade, isolamento, perda de apetite, fadiga, cansao, prostrao), que devem servir como parmetros para a avaliao de risco(CFP, 2013).Nesta avaliao, deve ser identificada a existncia de: a) algum tipo de transtorno mental (depresso, ansiedade, transtorno de personalidade, esquizofrenia), uso de substncias psicoativas (lcool, drogas), existncia de alguma comorbidade que potencialize o risco, comportamento com prejuzos nas atividades dirias, uso de roupas de mangas longas (podem esconder marcas de automutilao), mudanas na rotina do sono (insnia, alterao de horrios para dormir e acordar), isolamento repentino da famlia e do contato social, existncia prvia de traumas, conflitos, formao de personalidade, abandono afetivo, abusos, violncias recebidas, solido, estilo de vida; b) fatores psicolgicos (perdas recentes, impulsividade, agressividade, dinmica familiar conturbada), percepes autodepreciativas; c) condies clnicas incapacitantes (AIDS, neoplasias malignas, doenas orgnicas e crnicas); d) fatores sociodemogrficos (isolamento social, estado civil, desemprego, extrato econmico, aposentadoria); e) fatores predisponentes (transtorno mental, doenas) e fatores precipitantes (estressores separao conjugal, perda ou luto). A ponderao sobre os riscos desenha o ponto de partida para elaborao de planos que garantam acolhimento e tratamento adequados (BOTEGA et al., 2009; BERTOLOTE; MELLO-SANTOS; BOTEGA, 2010; CFP, 2013;MARCOLAN, 2018; MELO et al., 2018; CRPDF, 2020).

Segundo o Ministrio da Sade (MS, 2023a,b), o comportamento suicida universal, no conhece fronteiras e por isso afeta a todos. No Brasil, so registrados cerca de 12 mil suicdios todos os anos e cerca de 96,8% dos casos esto relacionados com transtornos mentais, prevalecendo a depresso, seguida do transtorno bipolar e do abuso de substncias (MS, 2023a). So os principais sinais de depresso: tristeza profunda, distrbios do sono, pensamentos negativos, desinteresse e apatia, baixa autoestima, desleixo com a aparncia, dores fsicas, rejeio, irritabilidade, choro frequente e aparentemente sem motivao, falta de vontade de executar atividades simples, mudanas bruscas de comportamento (MS, 2023b). O Ministrio da Sade tambm elenca os principais sinais de alerta para o suicdio: desesperana, raiva, descontrole, desejo de vingana; agir de forma imprudente ou se envolver em atividades de risco, aparentemente sem pensar, sentir-se preso, como se no houvesse sada; ansiedade, agitao, distrbios do sono; mudanas drsticas de humor; ameaa de se machucar ou se matar, fala em querer morrer (eu prefiro morrer a passar por isso, no quero mais viver);procura maneiras de se matar (maio: armas ou outros itens letais), dentre outros(MS, 2023a).

O estigma e o tabu relacionados ao suicdio so alguns dos diversos fatores que impedem a deteco precoce e sua preveno, quer por razes religiosas, morais ou culturais (ABP, 2014). essencial que a preveno do comportamento suicida comece na famlia, que deve aprendera lidar com a morte ou a possibilidade dela. Por tabu ou preconceito, vulnerabilidades ou fragilidade de laos afetivos (FERREIRA et al., 2018),geralmente a famlia tende a esconder tendncias suicidas por acreditar que os filhos pequenos no tero recursos psquicos para encarar a situao (CFP, 2013, p. 27). O trabalho nas escolas outro locus importante para se iniciar a preveno: com as crianas deve ser trabalhada, desde cedo, a valorizao da vida e valores humanos, por meio da transversalidade temtica, de programas psicoeducativos que acentuam o resgate de valores e os sentidos positivos do existir, como fraternidade, harmonia, respeito, dignidade humana como elementos que contribuem para o enfrentamento das dificuldades ao longo da vida.

Igualmente, de extrema importncia que se realizem treinamentos com as equipes de sade, de educao, de apoio, com os diversos segmentos da sociedade (engenheiros, profissionais do Direito, bombeiros e policiais, profissionais liberais), o que pode contribuir, potencialmente, para a identificao precoce dos riscos de comportamento suicida e, ao mesmo tempo, proporcionar tempo e oportunidade de intervenes com um trabalho em rede de assistncia e cuidado (CFP, 2013). possvel, pois, prevenir o suicdio, desde que os profissionais de sade de todos os nveis de ateno estejam capacitados a reconhecer os fatores de risco, para determinarem medidas de reduo do risco e evitar o suicdio (WHO, 2014).

O risco de suicdio uma urgncia mdica, porque pode imputar ao indivduo leses graves e incapacitantes e mesmo sua morte. Assim, avaliar sistematicamente os riscos de suicdio deve fazer parte da prtica clnica rotineira de qualquer mdico. Uma tentativa de suicdio um pecado, talvez o pior deles (ABP, 2014, p. 10). No se deve ter medo ou vergonha de discutir abertamente sobre o assunto, embora se saiba que um tabu, arraigado na cultura por sculos, no desaparece facilmente e sem esforo conjunto: o tabu inibe a busca por ajuda, aumenta a falta de conhecimento e ateno sobre o assunto e tende a alimentar a ideia errnea de que o comportamento suicida no um evento frequente, levantando barreiras para a preveno. Lutar contra esse tabu fundamental para que a preveno seja bem-sucedida (ABP, 2014, p. 12).

Alm da identificao dos fatores de risco, fundamental a preparao dos profissionais da sade e das demais reas sobre a identificao de pacientes potencialmente suicidas, pois essa a forma mais eficaz de preveno (RIBEIRO et al., 2018, p. 1086). importante avaliar o comportamento suicida (por familiares, amigos e profissionais de sade), mas, na avaliao, se deve priorizar o risco que antecede o evento e sua gravidade, identificando o incio do processo que comea com pensamentos tenebrosos relacionados morte, seguidos pela busca de como realizar o ato, at a consumao do suicdio.

Na preveno ao comportamento suicida, a Ateno Primria Sade (APS) estratgica: ela estabelece o contato inicial, preferencial e se elege como centro de comunicao da Rede de Ateno Sade (RAS), devido proximidade e vnculo com os indivduos na comunidade, o que tende a facilitar a identificao precoce de situaes de vulnerabilidade, alm de possibilitar a interveno imediata da equipe multiprofissional(BRASIL, 2013; FERREIRA et al., 2018).

Na esfera da Psicologia clnica, o suicdio pode ser compreendido como resultado de uma intensa dor psquica, um ato que pode ser inserido no campo da psicopatologia (TORO et al., 2013, p. 411). O trabalho de deteco e avaliao parte da anlise das causas que precipitaram o suicdio (ou tentativa de suicdio) em busca das motivaes internas do ato, como situaes de conflito e sofrimento vividas pelo sujeito (CFP, 2013).Em geral, quando algum elemento atual dispara um sentimento devastador capaz de provocar um suicdio, geralmente porque o indivduo reedita uma situao anterior de sofrimento, tornando intolervel o momento atual; nessa condio, o suicdio simboliza uma sada, uma soluo, uma possibilidade de aliviar, em definitivo, a dor psicolgica insuportvel e o sofrimento (RIBEIRO et al., 2018). A depresso , em geral, um fator precipitante, associada a situaes de perda do objeto idealizado, que pode ser experimentada como abandono, decepo, desapontamento, desiluso pela incapacidade de o sujeito atender s exigncias de seu ideal. A depresso e a angstia so experimentadas no corpo, e o sujeito deprimido aquele mergulhado numa angstia desmedida, angstia materializada no corpo sob a forma de dor. Di o corpo, di o peito, di a alma e matar-se seria a nica forma de livrar-se da dor (CFP, 2013, p. 33).

Segundo Botega et al. (2009), h estgios no desenvolvimento da inteno suicida. Inicia-se com a imaginao (contemplao da ideia suicida), caminha para um plano de como se matar (com ou sem ensaios realsticos ou imaginrios) at a execuo de uma ao destrutiva concreta, embora esse percurso dependa de mltiplas variveis. So trs as caractersticas prprias do estado das pessoas sob risco de suicdio: 1) ambivalncia: atitude interna, dilemtica, conflito interno entre o desejo de morrer/se matar e o de ficar vivo (MARCOLAN, 2018), e a preveno atua sobre o desejo de vida (este dilema provoca dor psquica); 2)impulsividade (transitria ou duradoura): o suicdio como ato impulsivo, desencadeado por eventos do dia a dia; 3) rigidez/constrio: estado cognitivo sufocante, de estreitamento, dicotmico (tudo ou nada), suicdio como soluo nica, embora drstica, morte como caminho nico, opes disponveis limitadas. O psiclogo necessita estar atento e identificar as frases ou expresses de alerta, por trs das quais esto os sentimentos apontando para o desejo de suicdio: depresso, desesperana, desamparo e desespero (regra dos 4D) (BOTEGA et al., 2009).

Ao psiclogo cabe investigar e conscientizar-se de que existem fatores de risco diversos para o suicdio (como um transtorno psiquitrico, brigas ou conflitos familiares, perda de emprego, dentro outros) que fomentam uma vulnerabilidade psquica a ser compreendida e considerada. Em se tratando da sade pblica, o psiclogo pode intervir a partir do momento em que se v qualificado o suficiente para compreender o fenmeno e identificar fatores que levam ao risco do suicdio.

O comportamento suicida pode ser prevenido, mas necessita de um bom planejamento e da criao de programas que envolvam profissionais qualificados de diversas reas (CFP, 2013). Por sua vez, a comunidade deve ser trabalhada conjuntamente e convidada a participar de modo efetivo: profissionais da sade e voluntrios podem implementar algum trabalho nos bairros, templos ou igrejas, organizaes no governamentais(ONGs), clubes (de servio ou lazer),dentre outros. A preveno do comportamento suicida representa um grande desafio para o psiclogo, a sociedade, poderes organizados (poltico, econmico, social).Apesar das dimenses complexas em que se enquadra, o suicdio pode ser prevenido, quer com intervenes individuais, quer coletivas de diagnstico, ateno, tratamento e preveno a transtornos mentais, aes de conscientizao, promoo de apoio socioemocional, limitao de acesso a meios, entre outras (MS, 2021; WHO, 2014, 2023). Basta lembrar que a OMS, segundo Viana (2023), considera que 90% dos casos de suicdio podem ser evitados, desde que existam condies mnimas para oferta de ajuda voluntria ou profissional.

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Nota do autor: Este artigo foi elaborado a propsito doSetembro Amarelo, tendo o Dia 10 do ms, oficialmente,como o Dia Mundial de Preveno ao Suicdio.Setembro Amarelo uma campanha de preveno ao suicdio, cujo objetivo promover a conscientizao da populao acerca deste fenmeno, a fim de prevenir e reduzir o alto ndice de suicdio no Pas. Tambm busca orientar para o tratamentoadequado dos transtornos mentais, que esto relacionados a 96,8% dos casos demorte por suicdio.Na prtica, a campanha dure todo o ano.
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