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Quarta, 31 de Maio de 2023

Familiares de vtimas da violncia policial cobram justia

29/03/2023 as 08:24 | Brasil | Agncia Brasil
Na semana que marca os 59 anos do golpe de Estado de 1964, a Coalizo Brasil por Memria, Verdade, Justia, Reparao e Democracia reuniu mes e familiares de vtimas da violncia policial ao longo dos ltimos anos em um debate na Cmara dos Deputados, em Braslia, na tarde desta tera-feira (28). O evento foi marcado pela comoo das pessoas que seguem sofrendo na pele a ao brutal das foras de segurana do Estado, mesmo dcadas aps o fim do regime autoritrio no pas.

o caso de Bruna Silva, me de Marcos Vinicius Silva, que morreu aos 14 anos durante uma operao policial o Complexo de Favelas da Mar, zona norte do Rio de Janeiro, h quase cinco anos. Na poca, o caso ganhou grande repercusso nacional, mas at hoje no houve justia. Naquele momento, em 2018, o Rio de Janeiro sofria uma interveno federal na rea de segurana pblica, com participao das Foras Armadas.

Meu filho foi morto aos 14 anos e [antes de morrer] me fez uma pergunta: Me, pelo amor de Deus, o que eu fiz? Eles no me viram com roupa e material de escola? Mesmo que no tivesse com roupa e material de escola, qual o problema? O papel do Estado no entrar para matar. A gente precisa de saneamento bsico, de uma luz, de um relgio [de gua], protesta Silva, que uma das fundadoras do Coletivo Mes da Mar, que atua em defesa dos direitos humanos na favela e por memria, justia e reparao. O Estado mata uma famlia inteira porque adoece, as mes vm morrendo. A gente se joga na luta no por estrelismo, mas para no morrer mesmo, acrescenta.

Todos os filhos assassinados pelo Estado esto presentes na nossa voz, que no se cala, e vamos lutar por justia, bradou Ana Paula Oliveira, fundadora do Coletivo Mes de Manguinhos. Ela tambm me de uma vtima, o jovem Jonathan Oliveira, morto em Manguinhos, favela do Rio de Janeiro, em 2014, por um policial da Unidade de Polcia Pacificadora (UPP). Na poca, ele tinha 19 anos.

Luta atualizada

Um dos pontos do debate desta tera, no contexto de memria sobre as violaes durante a ditadura militar, justamente transpor essa luta para as vtimas atuais de violncia do Estado, marcadamente populaes perifricas das grandes cidades, especialmente a juventude negra que vive nessas reas.

O tema da ditadura algo de penetrao muito difcil na sociedade brasileira. Historicamente, as pessoas do presente tm dificuldade de se conectar. por isso que principal ganho para essa luta por memria, verdade e justia e reparao quando incorporamos os novos agentes dessa luta, que so essas vtimas da violncia policial, argumenta Gabriele Abreu, coordenadora da rea de memria, verdade e justia do Instituto Vladimir Herzog e integrante da direo executiva da Coalizo.

Para Abreu, a falta de uma verdadeira justia de transio no pas, aps o fim do regime militar, um dos fatores que mais contribuem para a reiterao dessa violncia. A falta de cuidado, naquele momento, acaba refletindo hoje num certo aperfeioamento da maneira como, por exemplo, as polcias agem nas periferias e favelas brasileiras, uma cultura de impunidade que a ditadura no inaugura, mas acaba consolidando.

Estado que mata

H quatro meses, Gabriel Vilar, de apenas 18 anos tambm foi morto em uma operao policial na comunidade Nova Holanda, que tambm faz parte da Mar, no Rio de Janeiro. Os sonhos do meu irmo foram interrompidos por um Estado genocida, desabafa Rafaella Vilar, de 28 anos, irm mais velha de Gabriel. Segundo ela, seu irmo foi alvo de cinco tiros e outros cinco golpes de faca. Seu corpo teria ficado por vrias horas em poder de policiais at ser entregue para a famlia. Os policiais arrastaram o corpo do meu irmo como se ele fosse um bicho, de uma rua para outra. A pele dele saiu toda, ficou em carne viva. Quando aconteceu [o crime] eram 11h30 da manh, meu irmo foi encontrado s 5h da tarde, relata.

Bruna Mozer de Souza conta que seu filho, Bruno Luciano Mozer, foi executado aos 18 anos, na comunidade do Muquio, em 2018. Tomou um tiro no ombro, se rendeu e foi morto em seguida com um tiro na cabea. O enterro foi no dia do aniversrio da vtima e ela teve que promover uma vaquinha na favela para arrecadar os R$ 2,8 mil usados nas despesas do enterro. Na poca, o Estado registrou Bruno como filho de pais desconhecidos e com residncia ignorada. Esse descaso do Estado faz com que Bruna andasse sempre com o atestado de bito do prprio filho na bolsa, uma forma de dar dignidade sua memria, como algum que tem famlia.

Aps mais de 14 anos do assassinato do irmo, Luciano Norberto dos Santos ainda aguarda o julgamento dos agentes policiais envolvidos o caso. Executaram meu irmo com um tiro na nuca. O perito chegou concluso que meu irmo poderia estar com o brao levantado [quando foi alvejado], conta. Ele estava subindo do trabalho para casa quando os policiais pegaram ele e subiram com ele at o alto do morro, acrescenta. O jri popular do caso est previsto para os prximos meses. No vingana, queremos justia.

Para Gabriela Abreu, do Instituto Vladimir Herzog, as prticas violentas dos Anos de Chumbo serviram de herana para o que vemos hoje. A ditadura criou dispositivos ideolgicos e prticos de violncia que acabaram se perpetuando ao longo de dcadas, mesmo depois do fim do regime militar, porque no houve essa justia de transio.
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