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Segunda, 29 de Maio de 2023

Superlotao e pssimas condies em presdios so base de faces

26/03/2023 as 06:00 | Brasil | Agncia Brasil
A superlotao e as pssimas condies dos presdios brasileiros so as razes para o surgimento de faces criminosas no pas, afirma a doutora em sociologia Camila Nunes Dias, professora da Universidade Federal do ABC Paulista, uma das autoras do livro A Guerra A ascenso do PCC e o Mundo do Crime no Brasil.

Para a especialista, o poder dessas organizaes s diminuir quando Poder Pblico enfrentar diretamente o problema nas prises brasileiras. Segundo Dias, no apenas se apostar apenas na represso a eles com polcia, com regime duro, com armas, bombas (...) no vai ter nenhum tipo de avano.

"Enquanto as prises continuarem sendo celeiros de grupos criminais, a gente no vai resolver o problema. Vai se apagar o incndio e daqui um ano ou seis meses, a gente vai estar falando de novo do assunto porque uma nova crise est acontecendo e assim, cclico", argumentou.

Em entrevista Rdio Nacional, a especialista em temas ligados ao sistema prisional, criminalidade organizada e segurana pblica fala sobre a histria e atuao dessas organizaes no Brasil aps ataques promovidos por uma faco criminosa no Rio Grande do Norte e de operao da Polcia Federal, que prendeu suspeitos com planos de sequestro e homicdio de autoridades e servidores pblicos.

Confira os principais trechos da entrevista:

Rdio Nacional: Qual a origem dessas organizaes, como o PCC [Primeiro Comando da Capital], de So Paulo, e o Sindicato do Crime, que tem sido apontado como responsvel pelos ataques no Rio Grande do Norte?

Camila Nunes Dias: Existe algo em comum entre essas organizaes. So grupos que a gente costuma chamar de faces. Eles tm origem dentro de estabelecimentos prisionais e est vinculada a reivindicao contra a opresso existente dentro das prises. uma reivindicao por direitos.

O sistema prisional brasileiro violador de direitos, sempre foi e continua sendo. Esses grupos surgem nesse contexto. O Sindicato do Crime, no Rio Grande do Norte surge em 2013 j em um contexto de reao tambm ao PCC, que estava se espalhando pelo Brasil.

Rdio Nacional: O surgimento do PCC tem alguma ligao com o massacre do Carandiru?

Camila Nunes Dias: Sim, tem uma relao direta. O PCC surge em 1993, o massacre do Carandiru foi em 1992. O surgimento do PCC uma espcie de unio dos presos contra aquilo que entendiam ser uma ameaa segurana deles. O governo do estado [de So Paulo], atravs da Polcia Militar, promoveu um massacre de 111 presos. Quem garante que no iria se repetir? Nesse contexto que o PCC foi criado.

Rdio Nacional: Sobre os ataques no Rio Grande do Norte, algumas linhas de investigao apontam que as aes seriam uma represlia contra as condies dos presdios do estado. A senhora acha que isso mesmo? Afinal, o que est por trs desses ataques?

Camila Nunes Dias: Do meu entendimento, isso mesmo. A gente no pode pressupor que as pessoas sejam torturadas reiteradamente dentro de estabelecimentos prisionais, como o caso do Rio Grande do Norte. Em vrios relatrios, incluindo o mais recente no final do ano passado, h relatos de atrocidades cometidas contra os presos por servidores pblicos e a negligncia, omisso das autoridades que nada fizeram para impedir, punir ou interromper esse processo. No d para gente pressupor que isso vai continuar assim, indefinidamente, e no vai haver reao.

Infelizmente, desde 2017, movimentos sociais, familiares e outros tm denunciado essas condies das prises, s que nada foi feito.

Quando se ignora uma violncia gravssima sofrida por uma populao, no estou falando de violncia banal, mas de um crime [cometido por] agentes pblicos e fica impune. Infelizmente, s vezes, a resposta violenta a nica ouvida. Agora, pelo menos, est todo mundo falando no assunto. Precisou dessa violncia nas ruas para que a sociedade de uma maneira geral falasse sobre esse assunto.

Rdio Nacional: Sobre a operao do PCC que previa sequestrar autoridades e servidores pblicos, o que d para dizer sobre esse caso com as informaes que temos at agora? O que eles queriam com essa ao de monitorar servidores e autoridades?

Camila Nunes Dias: At o momento, tem uma grande confuso pelo menos no que eu acompanho na imprensa em relao a esses casos. Vi alguns casos falando que pretendiam no caso do do senador Srgio Moro era sequestrar e executar. A partir das informaes da imprensa, se sequestro voc tem um objetivo: pode ser troca por um preso ou por algum que est preso, dinheiro. Se voc quer executar, o objetivo outro. Voc quer matar e no tem nenhuma lgica envolvida, uma vingana, porque a partir da gesto Srgio Moro se interromperam visitas ntimas nos presdios federais.

Ento, est muito confuso at o momento. Estou acompanhando pela imprensa, mas a compreenso disso, e s parte dela, s vai acontecer quando a gente entender direito o que que aconteceu.

J o promotor Lincoln Gakiya um outro caso, que no tem relao com o material encontrado relacionado ao senador Srgio Moro e est sendo divulgada como se fosse a mesma coisa. O promotor Lincoln j vem sendo ameaado pelo PCC h muitos anos. Ele vem frente no combate ao PCC em So Paulo h muito tempo, atravs do GAECO [Grupo de Atuao Especial de Represso ao Crime Organizado de So Paulo] e h muitos anos ele sofre ameaas.

A gente tem que esclarecer melhor o que realmente foi encontrado, a investigao como que aconteceu. At pra compreender o que que se pretendia, porque da forma como est sendo veiculada, pra mim, no faz sentido. No a primeira vez que h ataques contra autoridades, mas o PCC tem mudado ao longo da sua histria um pouco a sua estratgia de enfrentamento, porque contra autoridades elas tendem a dar errado e gerar prejuzos.

Rdio Nacional: Diante de sua experincia em relao s organizaes criminosas no Brasil, o que poderia ser feito pelo Estado para minar o poder delas e reduzir a influncia que demonstram ter no territrio nacional?

Camila Nunes Dias: O poder das faces s vai ser reduzido quando se enfrentar aquilo que produziu esses grupos. Enquanto se apostar apenas na represso a eles com polcia, com regime duro, com armas, bombas (...) no vai ter nenhum tipo de avano. Tem que se enfrentar as causas.

A causa primria a superlotao e as pssimas condies das prises. Enquanto as prises continuarem sendo celeiros de grupos criminais, a gente no vai resolver o problema. Vai se apagar o incndio e daqui um ano ou seis meses, a gente vai estar falando de novo do assunto porque uma nova crise est acontecendo e assim, cclico.

Eu estudo o PCC desde 2007 e sempre assim. Ningum fala no assunto, sobre as prises. Quando acontece alguma coisa, as razes so as mesmas, mudam os atores, mudam os lugares e ampliam alguns grupos, como PCC, outros desaparecem. Mas a semente, a origem dos conflitos, o efeito que eles produzem de violncia sempre so similares.
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