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Quarta, 31 de Maio de 2023

Pesquisa: incluso racial ainda no praticada nas empresas do pas

21/03/2023 as 14:00 | Brasil | Agncia Brasil
Nesta tera-feira (21), quando se comemora o Dia Internacional de Luta pela Eliminao da Discriminao Racial, a pesquisa indita Mulheres negras no mercado de trabalho, realizada pela consultoria Trilhas de Impacto por meio da rede social Linkedin, revela que a incluso racial ainda inexistente nas empresas brasileiras.

A sondagem entrevistou 155 mulheres na faixa etria de 19 e 55 anos, sendo a mdia prevalente entre 30 e 45 anos. Do total das participantes, 50,3% possuem nvel superior e ps-graduao ou especializao; 13,5% mestrado e doutorado; e 24,5%, ensino superior completo. Suas reas de trabalho so educao, recursos humanos, tecnologia da informao (TI) e anlise de sistemas, telemarketing, relaes-pblicas, administrao e comrcio. A coleta de dados foi efetuada em 2021 e 2022.

Agncia Brasil, a diretora-presidente da consultoria, Juliana Kaizer, informou que o fato mais importante que 86% das mulheres entrevistadas relataram casos de racismo nas empresas. Isso, para mim, um dado muito relevante, porque todas as mulheres entrevistadas tm curso superior completo e esto formalmente empregadas. Chamou muito minha ateno que o fato de as pessoas terem nvel superior ou ps-graduao no impede que elas sofram racismo. assustador, manifestou Juliana.

A pesquisadora tambm uma mulher negra, professora do MBA em responsabilidade social e sustentabilidade do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do curso de diversidade da Escola de Negcios (IAG) da Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro (Puc Rio). ainda aluna de ps-graduao da Fundao Getulio Vargas e conselheira da Associao Brasileira de Recursos Humanos seo Rio de Janeiro (ABRH-RJ).

Mito
Na avaliao de Juliana, a pesquisa faz cair o mito da democracia racial que indica que, se a pessoa tiver um bom nvel de educao, no vai sofrer racismo. O objetivo foi conhecer a realidade das mulheres pretas e pardas no mercado de trabalho.

Durante a anlise dos dados, Juliana percebeu que alguns aspectos se repetiam nos relatos e decidiu dividi-los em categorias para melhor compreenso dos resultados qualitativos. Cabelo, por exemplo, foi um desses aspectos. Mais de 70% das mulheres relataram que, durante a jornada profissional, precisavam explicar porque o cabelo estava alisado, era black, ou a razo de terem colocado lace nos cabelos (prtese feita fio a fio em uma tela de microtule). Acho que esse um dado importante para a gente considerar.

Outro dado que chamou a ateno foi que 68% das profissionais disseram ter sido confundidas, em algum momento, com a faxineira ou moa da limpeza da empresa. Eu estou falando de mulheres com ensino superior completo e ps-graduao, ressaltou. Uma coordenadora de rea mencionou que, todo dia, o lder do setor pedia para ela deixar arrumado o espao pessoal e dos demais colegas. Ela no conseguia entender por que lhe era pedido aquilo. Os colegas iam embora e ela ficava limpando a sala. At que se deu conta de que estava sendo vtima de racismo. Mas demorou, porque ficou mais de um ano nessa situao.

Para Juliana, a situao muito crtica. um negcio assustador. A pesquisa revela que mais de 50% das consultadas disseram que a cor da pele e o lugar onde moravam foi perguntado durante as entrevistas online no recrutamento. Elas perceberam que, durante as entrevistas, no processo seletivo, tudo ia muito bem no formato online, com anlise do currculo, mas que, no momento da entrevista ao vivo, com a cmera aberta, os recrutadores, em geral mulheres brancas, voltavam atrs. Esse foi tambm um aspecto que as profissionais negras falaram muito.

Chamou a ateno tambm o fato de apesar de mais de 70% das respondentes terem ps-graduao, isso no faz com que elas subam na empresa. Muitas esto h dez anos no cargo, no veem nenhuma pessoa parecida com elas em cargo de liderana, enfim, no se sentem estimuladas.

Distanciamento
Como pesquisadora negra, Juliana disse ter sido difcil sair um pouco dela mesma para focar na pesquisa de forma distanciada. Porque estou falando de mim tambm. So barreiras pelas quais eu tambm passo. Se eu falo trs idiomas, se moro fora do Brasil, no adianta. A cor da minha pele chega antes. E foi isso que a pesquisa mostrou. Muitas mulheres falam ingls, algumas tm mestrado e doutorado e so tratadas de uma forma alvitante. E, se tem racismo, porque tem racistas.

Mulheres que esto em cargos de coordenao e gerncia afirmaram que quando descobriam que um colega branco desempenhava a mesma funo mas tinha salrio maior, e elas pleiteavam aumento, as empresas criavam um cargo para justificar que a outra pessoa, na mesma posio, ganhava mais. Todas, sem exceo, falaram de exausto no trabalho, tendo que dar provas de competncia o tempo todo e, ao mesmo tempo, no ganhar o suficiente para sobreviver.

Outro dado importante que as mulheres negras no crescem na carreira profissional no Brasil. Elas podem at crescer em cargos, mas no crescem em dinheiro. Juliana destacou que 52% dos estudantes de universidades federais so negros e questionou por que essa prtica no se repete nas empresas, com pessoas pretas em cargos de liderana, ganhando um bom dinheiro. De acordo com estudo do Instituto Ethos de 2020, mulheres negras representam 9,3% dos quadros das 500 maiores companhias do Brasil, mas esto presentes apenas em 0,4% dos altos cargos.

Ela espera que as empresas fiquem constrangidas diante do resultado da pesquisa e que isso possa levar a uma mudana de comportamento. A gente tem um problema para resolver enquanto nao. Na pesquisa, das 155 entrevistadas, pelo menos 40 mulheres falaram das mesmas empresas e o nome de 16 dessas companhias se repetiu nas citaes.
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