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Domingo, 26 de Marco de 2023

Um ms aps tragdia, famlias de So Sebastio vivem incerteza

19/03/2023 as 11:40 | Estado de So Paulo | Agncia Brasil
Um ms aps fortes chuvas e deslizamentos deixarem 65 pessoas mortas e uma desaparecida no litoral Norte do estado de So Paulo, as famlias atingidas enfrentam o luto pela perda de seus entes queridos e a incerteza sobre o futuro. Aproximadamente mil pessoas que tiveram suas casas destrudas, ou tornadas inabitveis pelo mar de lama, vivem hoje temporariamente em pousadas e hotis conveniados ao governo do estado. O convnio, de 30 dias, termina nas prximas semanas.

Muita gente preferiu ir para casa de parentes ou se estabelecer em quartos emprestados, e no sabe at quando ter um teto. Eu estou de favor em um quarto em Juquehy, em tempo de enlouquecer, de sair sem destino, sabe? Estou abalado, no sei qual o destino da minha vida. No sei o que vai acontecer. Assim, muita incerteza, s promessa, conta Edvaldo Guilherme Santos Neto, de 39 anos, que teve que abandonar a casa em que morava em So Sebastio, na Vila Sahy, o bairro mais atingido pela catstrofe.

Entre a noite de 18 de fevereiro e a manh seguinte, dia 19, choveu na regio mais de 600 milmetros. O acumulado, segundo o Centro Nacional de Previso de Monitoramento de Desastres (Cemaden), foi o maior j registrado no pas. O grande volume de gua devastou parte das cidades da regio, causou mortes, deslizamentos de encostas, alagamentos, destruiu casas e estradas.

Guilherme, sua esposa e filho, esto abrigados hoje em uma pousada no bairro de Juquehy, em So Sebastio, em um quarto emprestado, pelo perodo de um ms, por uma amiga. A casa dele, na Vila Sahy, resistiu aos deslizamentos, mas est interditada pelas autoridades. Na casa vizinha, todos morreram, com exceo de um familiar, salvo pelos prprios moradores.

A casa de Guilherme recebeu da Defesa Civil o selo de risco laranja usado quando a moradia no poder voltar a ser habitada at uma avaliao das autoridades. O adesivo amarelo utilizado para construes em situao de monitoramento, e o vermelho, para casas condenadas, que devero ser destrudas.

Eu no tenho psicolgico para voltar para minha casa, mesmo se eles liberarem. E a Defesa Civil no d um prazo de quando vai ser liberada. Fiz um emprstimo no Ita e j sujei meu nome. No sei o que fazer. Estou endividado pela minha casa, onde eu no posso morar. No recebi nenhum amparo, nenhuma garantia de que eu vou receber algum valor desse imvel, se ele no for liberado.

Ele afirma que, aps a tragdia, fez cadastro tanto na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de So Paulo (CDHU) e no Centro de Referncia de Assistncia Social (Cras) da cidade. Fizemos uns dez cadastros que eu nem sei para que que . Eu sei que cadastro foi o que eu mais fiz e, at hoje, ningum nunca me ligou nem para perguntar se eu preciso de um acompanhamento psicolgico. At agora estamos sobrevivendo da doao de cestas bsicas.

Guilherme diz que ele e a esposa tinham deixado os empregos pouco antes do desastre, para tentar iniciar um negcio prprio de comrcio pela internet. As mercadorias compradas por eles ficaram dentro da casa e foram perdidas. Ele conta que nunca recebeu nenhum tipo de aviso das autoridades de que sua casa estava em rea de risco. Alm das casas que foram destrudas pelos deslizamentos, a Defesa Civil condenou outras 230 moradias no municpio, que sero derrubadas nos prximos dias.

Se hoje est essa situao em So Sebastio porque, infelizmente, o poder pblico no fez um programa de habitao para o municpio. Isso quem paga a gente. Eu moro na Vila Sahy h 25 anos e a prefeitura nunca fez um programa de drenagem das encostas, nunca fez um programa de habitao, nunca chegou na minha porta e falou assim: aqui rea de risco.

Aps enfrentarem a lama dos deslizamentos para tentar salvar os vizinhos, a esposa de Guilherme comeou a sentir sintomas de leptospirose: diarreia e dores nas articulaes. Ela procurou um servio mdico e recebeu o diagnstico de virose.

Minha esposa ainda est com diarreia, o corpo doendo, porque ela teve contato com a gua contaminada. A gente tirou lama, tirou corpo dos escombros e da lama.

A prefeitura de So Sebastio afirma que no existe surto da doena na cidade. A administrao municipal reconhece, no entanto, que houve um aumento de notificaes de casos da doena aps as fortes chuvas. Em fevereiro, foram notificados 19 casos e, em maro, 17 casos, que aguardam resultado. At o momento, no h casos confirmados de leptospirose.

A Secretaria de Sade do municpio disse que chegou a registrar um aumento de aproximadamente 30% nos atendimentos a pacientes com gastroenterite - uma irritao no sistema digestivo que causa, entre outros sintomas, diarreia - nas unidades de sade do municpio, principalmente na Costa Sul.

No entanto, essa tendncia no se consolidou. comum nesta poca do ano, devido ao clima quente, que as pessoas apresentem alguns problemas intestinais. O recente aumento de casos levantou um alerta no municpio, especialmente aps as ltimas chuvas.

A prefeitura orienta que, caso a pessoa apresente algum sintoma, deve procurar a unidade de sade mais prxima, inclusive os hospitais de Clnicas da Costa Sul, localizado em Boiucanga, e a unidade da regio central.

Parcerias
A administrao municipal informou que fez parcerias com o governo federal e estadual, por meio da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e do programa Minha Casa, Minha Vida para a construo de mais de 900 imveis, entre casas e apartamentos, que sero destinados s famlias que perderam suas casas. A Defesa Civil, diferentemente da prefeitura, diz que sero construdas 518 unidades habitacionais.

Trs terrenos j esto em fase de terraplenagem, nos bairros da Topolndia e Vila Sahy. Segundo a gesto estadual, as primeiras unidades habitacionais devero ficar prontas em at 150 dias. At l, segundo a Defesa Civil, as pessoas que esto hoje abrigadas em cerca de 20 hotis e pousadas sero instaladas temporariamente em vilas de passagem, unidades habitacionais de madeira, que esto sendo construdas em So Sebastio. As pessoas tambm sero alocadas temporariamente em unidades habitacionais j prontas na cidade vizinha de Bertioga (SP).

A prefeitura orientou que as famlias que esto enfrentando dificuldades procurem o Centro de Referncia de Assistncia Social (Cras) mais prximo.
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