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Terca, 21 de Marco de 2023

Aumento do nmero de mdicos no reduziu desigualdades, diz pesquisa

08/02/2023 as 16:03 | Brasil | Agncia Brasil
A pesquisa Demografia Mdica, lanada hoje (8) pela Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (USP) em parceria com a Associao Mdica Brasileira, mostra que, apesar do expressivo crescimento no nmero de mdicos nos ltimos anos, permanece a desigualdade no acesso medicina no Brasil.

Segundo o levantamento, em 2013, eram 357,5 mil profissionais, e, em 2023, chegou-se a 562,2 mil. Com isso, o Brasil apresenta um ndice de 2,6 mdicos por grupo de 1 mil habitantes. O nmero ainda est abaixo da mdia de 3,36 mdicos por habitante entre os pases avaliados pela Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE). No entanto, semelhante ao de pases como os Estados Unidos (2,64) e o Canad (2,77).

Diferenas regionais
H desigualdades tanto na diviso regional, quanto na atuao nas redes pblica e privada de sade. No Norte, o ndice 1,45 mdicos a cada grupo de 1 mil habitantes, e no Nordeste, de 1,93. Enquanto no Sudeste, a proporo de 3,39 mdicos para 1 mil habitantes. No Distrito Federal, o ndice chega a 5,53 e em Vitria, no Esprito Santo, a 14,49.

O professor do departamento de Medicina Preventiva da USP, Mrio Scheffer, que coordenou o estudo, destacou que h um desequilbrio no nmero de profissionais que trabalham na rede privada e pblicas de sade. Se eu tivesse uma palavra para resumir a oferta de mdicos no Brasil eu diria que a marca a desigualdade. Estamos falando de aumento quantitativo, mas a desigualdade persistente, diz.

Citando dados do estudo anterior que, de acordo com o pesquisador, se mantm, ele ressaltou que apenas 21,5% dos mdicos trabalham exclusivamente no Sistema nico de Sade (SUS). Mas 10% deles so mdicos residentes que esto quase compulsoriamente porque a formao no SUS, acrescentou. Trabalham somente em hospitais e clnicas privadas, 28,3% dos mdicos e 50,2% atuam nas duas redes.

Poucas consultas
Essa assimetria se reflete, segundo Scheffer, no acesso efetivo sade. A partir da anlise das 660 milhes de consultas mdicas realizadas em 2019, o estudo aponta que a populao brasileira realiza, em mdia, 3,1 consultas por ano. O valor cai para 2,3 entre os usurios do SUS e fica em 3,3 para quem tem plano de sade. O ndice menor do que a mdia dos pases da OCDE, de 6,8 consultas por habitante por ano, e de pases como Alemanha (9,8) e Canad (6,6).

A gente verifica que, apesar de termos um nmero razovel de mdicos, a gente tem um nmero de consultas completamente inferior ao de outros pases que tm nmero de mdicos semelhante ao do Brasil. Isso porque a gente tem essa sobreposio de desigualdades, no s o caso de uma distribuio regional. Tambm essa distribuio dos mdicos no setor pblico e no setor privado, com essa consequncia dramtica de eficincia, analisa a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Ligia Bahia, que tambm participou do estudo.

Por isso, Ligia Bahia afirma que necessrio expandir a rede SUS como forma de garantir o acesso sade. A gente precisa ter um sistema de sade muito menos privatizado, enfatiza.

Polticas de alocao
Scheffer defendeu adoo de polticas, como o programa Mais Mdicos, que promovam a redistribuio de profissionais pelo pas. Segundo ele, a abertura de cursos de medicina no interior do pas no foi suficiente para levar os profissionais para localidades fora dos grandes centros econmicos. Esse um exemplo de poltica que deve continuar, mas considerar tambm as transformaes que esto ocorrendo, disse.

Para o coordenador do estudo, preciso ter um planejamento na distribuio dos profissionais pelas diferentes regies. Um das questes justamente qual o perfil do mdico, a qualificao e a formao adequada para ocupar esses postos de trabalho onde ainda existe falta de mdicos. Nesse sentido, os programas de alocao de mdicos so importantes.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Mrio Dal Poz, que tambm participou da pesquisa, acredita que necessrio identificar os incentivos que faro com que os mdicos se fixem, ao menos por parte da carreira, em regies mais afastadas. Os mdicos reagem a incentivos financeiros e no financeiros como qualquer outro profissional. Ento, a questo de oferecer conjuntos adequados de incentivos: remunerao e uma srie de outros que podem ser considerados para os lugares que se queira [levar os profissionais], diz.

Segundo o especialista, alguns pases tm experincias bem-sucedidas nesse sentido, ao estabelecer carreiras para que esses profissionais tambm atuem em reas mais remotas. Como poltica pblica, voc tem experincias muito bacanas e que funcionam no Canad, na Austrlia e em vrios outros pases em que voc incentiva esses mdicos, cria condies para eles estarem um tempo l e depois esses mdicos evoluem se casam, tm filhos e eles tm outras oportunidades para ir para outros lugares, comentou.
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