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Terca, 21 de Marco de 2023

Boate Kiss: trauma psicolgico persiste entre sobreviventes

28/01/2023 as 11:32 | Brasil | Agncia Brasil
O sorriso no rosto no mostra as marcas internas de uma das sobreviventes do incndio na Boate Kiss, em Santa Maria, h dez anos. A gacha Cristiane Clav, de 36 anos, estava na casa noturna para comemorar um aniversrio e, na dramtica noite, perdeu 15 amigos. Sem cicatrizes visveis, Cristiane no precisou ser internada, mas uma tosse persistente a fez procurar atendimento mdico dois dias depois da tragdia.

"Fiz exames porque minha tosse no passava e, com isso, ficou constatada uma queimadura interna, no pulmo. Foi assim que comecei o tratamento no Centro Integrado de Atendimento s Vtimas de Acidentes (Ciava) e at hoje fao acompanhamento com o pneumologista. Fiz fisioterapia at o final do ano passado, agora estou conseguindo fazer natao e outras atividades fsicas", conta Cristiane. "O tratamento ser para o resto da vida. A cada trs meses, volto ao centro para uma srie de exames."

O Ciava um ncleo do Hospital Universitrio de Santa Maria (HUSM), criado aps a tragdia na casa noturna. O hospital foi o primeiro ponto de atendimento e entendeu que precisaria reunir diversos profissionais para que o tratamento fosse adequado s vtimas. O centro atendeu 602 vtimas do incndio em um conjunto multidisciplinar com pneumologistas, psiquiatras, fisioterapeutas, fonoaudilogos, assistentes sociais, psiclogos, enfermeiros e outros. Atualmente, 25 pacientes que estavam na boate na noite do incndio so acompanhados pelo centro.

Segundo Cristiane, os profissionais do Ciava prestam um atendimento cuidadoso e fraternal com os pacientes. Na avaliao de Cristiane, muitos mdicos foram aprendendo a lidar com situao das vtimas e ajustando o tratamento s necessidades individuais.

"Os primeiros profissionais que me atenderam me tratavam como filha. Uma das mdicas explicava tudo o que estava acontecendo comigo, quais procedimentos estavam sendo feitos. Eles me falavam que o que acontecia era algo complicado tambm para eles porque, at ento, ningum havia passado por situao semelhante. At a medicao foi sendo adaptada ao longo do tempo, pois fazamos testes, muitos exames, raios x tudo para avaliar se havia necessidade de alterar a dose de alguma medicao", lembra Cristiane.

Drama
Ela conta que estava em frente ao palco onde a banda tocava e, pouco antes do incio do incndio, saiu para ir ao banheiro com uma amiga. Ao voltar, viu fumaa e o que imaginava ser uma confuso. Quando entendeu a gravidade da situao, tentou sair da casa noturna tampando olhos, boca e nariz, mas a fumaa txica atingiu seu pulmo.

"No imaginei que fosse fogo, parecia uma briga. Logo em seguida, vi o palco pegando fogo e um rapaz tentando apag-lo com um extintor. Enquanto eu ia at a porta, a fumaa entrou pelo sistema de ar condicionado e chegou at a porta antes de ns. Ento, quando chegamos porta de sada, a fumaa j estava l. Era uma fumaa preta e quente, e foi isso que atingiu meu pulmo, porque no tinha fogo [por onde passei]", lembra. "Fiquei pouco tempo [envolvida] na fumaa, apenas no trajeto entre o palco e a porta de sada, mesmo assim o dano foi grave."

Para a gacha, o trauma psicolgico um dos maiores pesos da noite do incndio. A tragdia provocou a morte de 242 pessoas e at hoje nenhum ru foi responsabilizado.

"Ao meu lado estavam cinco meninas, chamadas de cinderelas. Todas morreram. Eu fao tratamento com psiclogo e psiquiatra, mas no consigo esquecer. No tem um dia que eu no lembre o que passei. Agora, por exemplo, mesmo que eu no olhe para o calendrio, meu corpo parece saber que est chegando [a data]. H trs semanas, eu tenho acordado todos os dias no mesmo horrio, sem despertador. no horrio que o incndio estava acontecendo", descreveu. "Eu perdi muito a memria, o que me atrapalha no dia a dia, mas, daquele dia, eu lembro de tudo, de cada passo que eu dei", acrescentou.

Cristiane diz que mantm a lembrana do que aconteceu em homenagem aos amigos que perderam a vida e que fala sobre o assunto para alertar as autoridades a no permitirem outro acidente dessa forma.

"Hoje eu falo para dar voz a quem no pode mais falar. Eu tenho um pulmo e um corao machucados. Muitas vezes, eu mal consigo caminhar porque me d falta de ar, mas o pior o sentimento. A tristeza de ter perdido pessoas e a sensao de no ter conseguido voltar e salvar um amigo que foi heri, ele j tinha sado e voltou para ajudar outras pessoas. Foi difcil, mas as pessoas tm que aprender para que isso no se repita."

Ciava
A fisioterapeuta Anna Ourique chegou a Santa Maria trs meses aps a tragdia para ajudar no atendimento das vtimas do incndio e, dez anos depois, continua trabalhando no centro.

[Naquela ocasio], o hospital comeou a receber os pacientes que voltavam da internao em Porto Alegre, principalmente os queimados, j que aqui na cidade no havia centro de atendimento de vtimas de queimaduras. Esses pacientes precisavam continuar a reabilitao, muitos tinham problemas por ter inalado fumaa e questes respiratrias graves. Alm disso, tnhamos aqueles com sequelas de queimaduras e, sabemos que, quando no tratadas, aderem pele e impedem os movimentos das pessoas tirando toda funcionalidade, explicou.

O volume de trabalho e a quantidade de pacientes eram desafiadores para os profissionais da linha de frente no atendimento. A demanda fez com que a equipe buscasse meios de atender a situao crtica.

Em um primeiro momento aps a tragdia, eu j sabia que teria um trabalho muito desafiador porque eram muitos pacientes para atender. Em hospitais, recebemos muitos pacientes, mas nunca ao mesmo tempo, mas, naquela situao, cada vez recebamos mais pacientes e tendo que atender todos eles ao mesmo tempo. Foi uma experincia tanto profissional quanto pessoal que nos trouxe bastante crescimento. Tivemos que estudar muito, ressaltou.

Segundo a fisioterapeuta, o aspecto emocional tambm impactante para os profissionais de sade. Os pacientes vieram com uma carga psicolgica bem intensa. Houve vtimas que foram com amigos para a boate e todos estes morreram. Outros perderam irmos. O fisioterapeuta o profissional mais prximo, porque atende o paciente mais vezes. Muitas vezes, aquela vtima conversa mais conosco do que com outros profissionais da equipe. Ento, foi um desafio porque tnhamos que manter a firmeza para dar o suporte para esses pacientes, todos muito jovens, disse Anna.

Legado
Na avaliao do superintendente do Hospital Universitrio de Santa Maria, Humberto Palma, o Ciava um legado do drama vivenciado pela populao de Santa Maria. O centro ajudou no atendimento das vtimas do ataque creche Gente Inocente, em Janaba, em Minas Gerais, e de incndios em Portugal.

"No tem como apagar a dor. No tem como apagar o sentimento. Mesmo que a gente no tenha um vnculo direto, um parente, sente essa dor. Porm, a partir disso, conseguimos criar algo que pudesse ajudar as pessoas, e o Ciava faz essa funo, e esse foi o grande mrito que o hospital conseguiu: ter a fora de colaborar com a sociedade", enfatiza Palma.

Com dois livros publicados, o centro divulga os protocolos adotados com os pacientes para outros estados e realiza treinamentos online e presenciais. Segundo Palma, a perspectiva que o conhecimento adquirido pelo centro seja repassado para outros hospitais universitrios administrados pela Empresa Brasileira de Servios Hospitalares (Ebserh), do qual o Hospital Universitrio faz parte.

"A ideia que o Hospital Universitrio de Santa Maria transfira o conhecimento para que outros hospitais universitrios possam ter equipes com know-how suficiente para no ter que correr atrs naquele momento [ps-acidente], para que estejam preparados e em condies tanto tcnicas quanto emocionais, alm de recursos fsicos para dar o suporte necessrio. Acidentes, infelizmente, tragicamente, acontecem, e ns, dentro da funo do atendimento em sade, temos que estar preparados", afirma.
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