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Sabado, 28 de Janeiro de 2023

QUANDO O CORPO DEIXA DE SE EXPRESSAR NO MUNDO: aspectos psicolgicos

21/01/2023 as 15:36 | Fernandpolis | Andr Marcelo Lima Pereira
Da mesma forma como o processo sade-doena envolve fatores que podem estar relacionados com a manuteno/promoo da sade e processos de adoecimento, em geral fundamentados em uma abordagem materialista, de natureza fsica, a expresso da subjetividade se associa a aspectos cognitivos e emocionais, que tambm podem ser determinantes da sade e da doena e vincular-se expresso do indivduo no mundo (CRUZ; PEREIRA JR., 2011).A expresso se associa s manifestaes visveis ou sensveis, que podem ser representadas pelo corpo que fala e, mais propriamente, pela linguagem (corporal, fsica, visvel, audvel).

Sabe-se que o sistema nervoso autnomo responde pela coordenao do funcionamento de todos os rgos internos, regulado pelo sistema lmbico, o qual sofre interferncia das experincias afetivas e emocionais do indivduo em seu contexto social (CRUZ; PEREIRA JR., 2011). A psiconeuroimunologia, que estuda as interaes entre o sistema neuroendcrino, imune e os aspectos psicolgicos e comportamentais, trouxe luz que o sistema imune influencia e influenciado pelo crebro. Nesse sentido, Marques-Deak e Sternberg (2004, p. 143) associam emoes e doenas, o que explicaria que uma variedade de estressores fsicos e psicossociais podem alterar a resposta imune atravs dessas conexes. Esse fato justificado pelos avanos em biologia celular e molecular, gentica, neurocincias e em estudos de imagem cerebral, os quais desvendaram as diversas conexes entre os sistemas neuroendcrino, neurolgico e o sistema imunolgico e, em decorrncia, entre emoes e doenas.

Parte-se da ideia de que, por meio do ato expressivo da linguagem (oral e no oral), se consegue desvelar o desconhecido, declarar insatisfao, contentamento, excitaes emocionais (que podem estar associadas aos instintos) como raiva, medo, amor, alteraes subjetivas e objetivas (atitudes e fisionomia) manifestas pela respirao, circulao e outras funes orgnicas especficas. Sem o ato expressivo, no se conseguem estabelecer agenciamentos, relaes de troca, vivncias, conflitos, solues, compartilhamentos (CRUZ; PEREIRA JR., 2011).A expresso responsvel pela criao e transformao das mltiplas identidades, pelo reconhecimento de si e do outro, pela possibilidade de o indivduo se expressar, pela aquisio de conhecimento, eviabiliza diversos tipos de experincia.

A expresso se realiza por meio da linguagem verbal e no verbal. No se pode dizer que exista integrao total concluda de forma completa entre corpo e subjetividade, uma vez que essa integrao est em processo de construo contnua, isto , sempre e mandamento (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997).Outrossim, no se pode olhar para o aspecto fsico nem para os sentimentos e emoes de forma isolada. Deve-se olhar, simultaneamente, para as sensaes (subjetivas) e reaes corporais implicadas na vivncia das experincias. No se olha para uma pessoa portadora de cncer, por exemplo, sem que se observem suas emoes e vivncias psicolgicas. Ou no se olha para uma pessoa que passa por um momento de raiva, sem que se olhem suas expresses corporais.

Deve-se experienciar, perceber/sentiro organismo como um todo: se a tristeza (emoo, portanto, elemento subjetivo, interno) gera um forte aperto no peito, esta experincia tambm vivida pelo corpo fsico; a sensao de alegria, oposta tristeza, igualmente inocula o corpo fsico. Cada emoo, positiva ou negativa, vem acompanhada de sensaes internas e reaes corporais no indivduo e devem ser consideradas.

Emoo um componente significativo na fala e expresso corporal. Pode ser entendida como uma condio complexa e momentnea que surge em experincias de carter afetivo, provocando alteraes em vrias reas do funcionamento psicolgico e fisiolgico, preparando o indivduo para a ao (MIGUEL, 2015, p. 153).

As emoes expressam afetos. Vm acompanhadas de reaes do organismo: intensas ou breves, mais densas, duradouras ou comedidas, respondem pelo inesperado, surpreendente, fantasiado (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001). As emoes, como afetos, assim experimentadas, revelam-se em expresses corporais, orgnicas que podem escapar ao controle da pessoa. importante, pois, conhecer-se e conhecer seus afetos e sensaes fsicas/corporais que tm origem na emoo muitas vezes esquecida no af do cotidiano: emoes e corpo so interdependentes e interferem na ao do indivduo, no modo como ele age.

A vivncia das emoes, principalmente quando reprimidas ou no manifestas (isto , extremamente controladas), pode, de imediato ou mais tardiamente, eclodir em reaes ou implicaes corporais bem diversas, tais como tremores, sudorese, falta de ar, taquicardia, boca seca, dor de barriga, tenso muscular, at mesmo doenas cardiovasculares ou infecciosas, cncer, entre outras. Martins e Volpi (2016,p. 6) consideram que as tenses musculares so provenientes do congelamento de emoes [e sensaes] refletidas no corpo; o reflexo desse congelamento surge diante da necessidade de express-las, quer seja de forma verbal ou corporal.

As reaes tambm podem expressar-se em afetos subjetivos ou estados emocionais (tristeza, alegria, surpresa, medo, nojo, raiva), mudanas corporais tpicas (fsicas e fisiolgicas, como sudorese, dilatao das pupilas ou alterao do batimento cardaco e da respirao) e reaes comportamentais (que incluem expresses faciais tpicas das seis emoes bsicas alegria, medo, surpresa, tristeza, nojo e raiva , alteraes na voz, na postura e at na movimentao). Essas reaes, fsicas ou emocionais/subjetivas, podem ou no ocorrer simultaneamente (MIGUEL, 2015).

Nahas (2017) pontua que emoes reprimidas (no manifestas, encarceradas) tendem a potencializar sensaes fsicas desagradveis, doenas crnicas e alteraes hormonais e estresse. O autor refora, por exemplo, que diversas doenas aparecem associadas aos quadros de estresse, como doenas cardacas, que comprovadamente tm o estresse como um dos fatores de risco, e situaes de agressividade e frustrao, tristeza e sensao de impotncia, que podem acabar somatizadas na forma de diversas doenas. Do estresse, frequentemente resultante de forte tenso emocional (ALVES, 2011) ou de emoes reprimidas, no verbalizadas nem expressas, ainda podem advir outras manifestaes como dor de cabea, dores musculares e articulares, insnia, ansiedade, irritabilidade, cansao constante, sensao de incapacidade, perda de memria e mau humor.

Quando se contm a expresso do prprio ser no mundo, contm-se as manifestaes mais ldimas que ele possui, mesmo que, em muitas ocasies, a expresso veicule contedos contraditrios. Embora a expresso se manifeste, mais comumente, por meio da oralidade, entendida como a verdadeira substncia da comunicao (MUSSIO, 2015), constituda pelo fenmeno da interao verbal, no se deve, jamais, menosprezar a linguagem corporal, noverbal, que complementa vrias funes bsicas da comunicao verbal (OLIVEIRA, 2010).

O corpo, como expresso social, marca a presena do indivduo no mundo, diante dos outros. O corpo o lugar do desejo e do infortnio, depositrio silencioso de todas as nossas emoes, inquietudes e projetos de vida (SANTANA, 1998, p. 24). Conforme Merleau-Ponty(2018),assim como o corpo de algum percebe o mundo como sistema de abordagens sobre o mundo, o corpo do outro tambm o percebe segundo suas condutas simblicas e da conduta do que supe como verdadeiro, em comunicao intersubjetiva ou objetiva, como representao das ansiedades e imperfeies, deficincias e possibilidades desuperao do corpo.

O corpo representa a reflexividade (MERLEAU-PONTY, 2018):a experincia do corpo, pela expresso, se propaga e se repete na relao com as coisas, com os outros, com o mundo e com os significados desse mundo, de forma sensvel e simultnea. Vetar a expresso do mundo pessoal (objetivo e subjetivo) interromper a expresso de vivncias pessoais com o mundo, impedir a criao e recriao, a reinterpretao, a prpria expresso do ser em mtuas alteraes (mundo interno e mundo externo). Deixar de expressar-se no mundo negar um campo de presena no mundo das significaes sensveis e das relaes da vida perceptiva e do mundo sensvel. Calar abster-se de conhecer as expresses do outro, que tambm tem vivncias e emoes (choro, riso, sonho, criao, fantasia, histria, herana, afeto, necessidade do abrao do outro para viver). Weil e Tompakow(2015) acentuam que o corpo fala por meio de uma expresso verbal ou por uma linguagem silenciosa da comunicao no verbal: o corpo um instrumento de comunicao que se expressa na fala, nos gestos, nas aes, nas intenes, nos impulsos, embora a linguagem corporal s traga significados dentro de um contexto. Conhecer os sinais humanos da expresso corporal ajuda em uma comunicao mais eficaz, porque revela estados de tenso, rejeio, aprovao, alegria e uma infinidade de outras mensagens, assim como pode desmentir o que a pessoa fala, ou seja, discordar daquilo que foi veiculado pela comunicao verbal (OLIVEIRA, 2010, p. 12).

Mesmo quando se expressam os sentimentos por meio da fala, deve-se abrir para a expresso dos sentimentos com o corpo. Caso no se consiga falar sobre o que sente com palavras, o corpo assume o papel de principal meio da expresso. No se podem calaras sensaes e sentimentos, porque os resultados da interrupo da expresso (verbal e no verbal) aparecem no corpo fsico que se queda aviltado. Merece destaque a importncia das formas de expresso do corpo, que podem mascarar causas e sintomas mais srios. Estas formas de expresso tendem a resultar da presso emocional causada pela necessidade de adaptao a situaes novas, inesperadas ou que exijam demais do indivduo e provocar respostas psicossomticas, como estresse, fadiga, depresso, ansiedade (PEREIRA; GOUVA, 2016, p. 188).

A pessoa deve ser vista, portanto, como composta de um conjunto complexo de estruturas(fisiolgica, psicolgica, social, espiritual e emocional), inter-relacionadas e interdependentes: deve conquistar e manter uma homeostase constante o equilbrio natural do corpo, com capacidade de autorregulao; deve olhar a doena, as expresses corporais e as emoes vivenciadas sob a tica de busca do equilbrio (corpo/mente).

As emoes, tanto quanto as sensaes corporais vividas, devem ser reconhecidas. As emoes desempenham um papel essencial nos relacionamentos e na manuteno do valor ou da dignidade em situaes sociais. Quando positivas, como amor, alegria, satisfao e respeito, as emoes tendem a aproximar pessoas e estimular vnculos interpessoais. Quando negativas, como raiva, dvida, culpa, as emoes podem prejudicar os relacionamentos. Nessa esfera, porm, o importante a equidade, a proporo das expresses emocionais, posto que de bom alvitre no as considerar essencialmente boas ou ruins (GOLEMAN, 2011).
Importa reconhecer que as emoes tanto podem prejudicar quanto curar,psicolgica e fisicamente: expressar-se de modo positivose associa melhor sade e sobrevivncia; faz-lo de modo negativo, gera repercusses em adoecimentos diversos. Alves (2011) entende que ampliar a interao entre os indivduos, a maior expresso de sentimentos e opinies, a autonomia e as relaes interpessoais aumenta o poder das modalidades de comunicao. Em nenhum momento se deve inibir o corpo de se expressar no mundo; ao contrrio, a expresso (de cuidados, afetos e emoes) no mundo a forma mais dinmica para se manter vivo. Somos animais sociais, e o ato de ouvir, tocar, sentir, ver o outro faz parte da natureza social humana. O ser humano precisa relacionar-se pelos diferentes meios de que dispe e por diversos motivos: necessidade de se comunicar, aprender, ensinar, dizer que ama o prximo; exigir melhores condies e qualidade de vida, melhorar o seu ambiente externo, expressar desejos e vontades. Vive-se em grupos (de familiares, vizinhos, amigos, trabalho, lazer, entretenimento), e neles o ser humano interage, cresce e compartilha influncias mtuas.

No se deve calar. Em toda a vida e sob quaisquer circunstncias, no se deve calar. O corpo no deve deixar de se expressar no mundo. No se pode pensar que certos tipos de expresso no mundo resultem em piorar as coisas, dar briga, no vai mudar nada, vai magoar o outro, ele no vai entender. Calar uma injustia para si: o indivduo deixa de expressar como se sente, como percebe as coisas no mundo, emudece a percepo, coleciona ressentimentos (sente e re-sente), repisa dores. Calar uma injustia para o outro, que deixa de entender, apoiar, ouvir, corrigir, desculpar. Calar a expresso cria desgastes, abismos, coleciona mgoas, decepes e rancores(MARTINS; VOLPI, 2016).

Quando a boca se cala, o corpo precisa falar e deixar-se expressar no mundo.

REFERNCIAS

ALVES, R. F. (Org.). Psicologia da sade: teoria, interveno e pesquisa. Campina Grande, PB: EDUEPB [Editora da universidade Estadual da Paraba], 2011. 345 p.

BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, A. L. T. Psicologias: uma introduo ao estudo da psicologia. 13. ed., refomul. ampl. So Paulo: Editora Saraiva, 2001. 490 p.

CRUZ, M. Z.; PEREIRA JR, A. Corpo, mente e emoes: referenciais tericos da psicossomtica. Rev. Simbio-Logias, v. 4, n. 6, p. 46-66, dez. 2011.

GOLEMAN, Dl. Inteligncia emocional. Traduo: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2011.

MARQUES-DEAK, A.; STERNBERG, E. Psiconeuroimunologia: a relao entre o sistema nervoso central e o sistema imunolgico. RevBrasPsiquiatr, v. 26, n. 3, p. 143-144, 2004.

MARTINS, .; VOLPI, S. O corpo na psicoterapia: o inconsciente enquanto expresso corporal. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. (Orgs.). In: XXI Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais. Anais... Curitiba: Centro Reichiano, 2016. p. 93-105.

MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepo. Traduo: Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 5. ed. So Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2018. 555 p. (Biblioteca do pensamento moderno).

MIGUEL, F. K. Psicologia das emoes: uma proposta integrativa para compreender a expresso emocional. Psico-USF, Bragana Paulista, SP, v. 20, n. 1, p. 153-162, jan./abr. 2015.

MUSSIO, S. Um olhar alteritrio em Bakhtin: o estudo do enunciado como forma de dilogo. SOLETRAS Revista do Departamento de Letras da FFP/UERJ, n. 30, p. 178-190, jul./dez 2015.

NAHAS, M. V. Atividade fsica, sade e qualidade de vida: conceitos e sugestes para um estilo de vida ativo. 7. ed. Florianpolis, SC: Editora do Autor, 2017. 362 p.

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SANTANA, M. G. Percepo do corpo como expresso do ser: uma viso atravs do cuidado de enfermagem. CogitareEnferm., Curitiba, v. 3, n. 1, p. 24-27, jan./jun. 1998.

WEIL, P.; TOMPAKOW, R. Corpo fala: a linguagem silenciosa da comunicao no verbal. 74. ed. Petrpolis, RJ: Editora Vozes, 2015. 288 p.

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