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Quarta, 29 de Marco de 2023

A sndrome do pequeno poder: Implicaes nas organizaes

11/12/2022 as 08:30 | Fernandpolis | Andr Marcelo Lima Pereira
A sndrome do pequeno poder entendida como uma atitude de autoritarismo de um indivduo que, ao assumir poder, usa-o de forma absoluta, arbitrria, desptica e no se preocupa com as consequncias que seus atos venham a ocasionar a outros indivduos. Trata-se de um transtorno de comportamento individual que mina as relaes sociais e rompe as possibilidades de se estabelecer convivncia, tendo-se em vista que o indivduo d primazia satisfao pessoal de forma arrogante, autoritria, abusiva (MARCARINI, 2017).

Segundo Saffioti (1989), a sndrome do pequeno poder reflete um problema social e surge quando o indivduo no se d por satisfeito com a pequena parcela de poder que adquiriu ou lhe foi atribuda, mas se sente superior a outras pessoas, acha-se detentora de uma responsabilidade (na verdade, hipottica e falsa) sobre outrem e exorbita sua autoridade, ou seja, a sndrome faz com que um indivduo abuse de algum fazendo mau uso de um poder que tem ou imagina ter.

Pessoas acometidas pela sndrome tendem a ter, habitualmente, sua autoestima potencialmente prejudicada, uma vez que sentem a necessidade permanente de humilhar o outro na perspectiva de eliminar o prprio sentimento de menos valia. Procuram rebaixar ou diminuir outrem para sentir-se maior (MACHADO, 2022): trata-se de uma reao agressiva praticada contra qualquer um que possa representar um risco mnimo para sua autoridade percebida como falsa pelos outros e, por isso, no conseguem encontrar lugar em qualquer ambiente. Tais pessoas, detendo um mnimo poder, procuram, a todo custo, sobrepor-se de forma desptica, impondo suas vontades aos outros, em uma forma velada ou manifesta de autoritarismo.

No se deve, porm, confundir poder, autoridade e autoritarismo. A autoridade um bem que se conquista. Autoridade resulta do reconhecimento a um esforo empenhado, ao desempenho ou execuo de papis que mostram a competncia ou habilidade desenvolvida de um indivduo: depende, pois, da anuncia das pessoas no entorno (MARCARINI, 2017; CATTAPAN, 2019; BACK, 2021; MACHADO, 2022).

Arendt (2011) j demarcava a diferena entre autoridade e poder: a autoridade se consolida na obedincia consciente e respeitosa, enquanto o poder se exerce na violncia pelo uso da fora e, neste sentido, a autoridade tende a fracassar. A autoridade um atributo de pessoas e no se fundamenta na submisso, na abdicao da razo, mas reflete o reconhecimento de que algum detm autoridade porque dispe demais conhecimento e habilidades para execuo de atividades e, no trabalho, porque compreende as limitaes dos outros seus pares. Gadamer (2003, p. 371) refora o conceito de autoridade de uma pessoa: [...] a autoridade , em primeiro lugar, uma atribuio a pessoas. Dessa forma, se algum pretende ser reconhecido como autoridade, no deve esperar adquiri-la por outorga; a autoridade deve ser alcanada (BACK, 2021, p. 4). A autoridade se fundamenta, pois, no reconhecimento, em uma ao racional, consciente, no depende da submisso, da obedincia, mas de um conhecimento socialmente reconhecido (ARENDT, 2011).

Por seu turno, o autoritarismo, diferentemente da autoridade legtima e socialmente conquistada, a instaurao de um poder pela fora bruta, e uma organizao em que impera o poder autoritrio se baseia em uma autoridade superior a ela prpria (CATTAPAN, 2019). Geralmente traduzido em atitudes agressivas que objetivam subjugar o outro; logo, brota da incompetncia, da carncia de recursos para administrao dos conflitos que dele nascem (MARCARINI, 2022).

Nesta tica, o desgaste da autoridade proporciona situaes de crises de governana que passa a nortear-se pelo autoritarismo, pela imposio de ordens nem sempre compatveis com a realidade de uma organizao em que a liberdade, o reconhecimento e o engajamento entram em derrocada ou mesmo colapso. A imposio da autoridade pelo autoritarismo abre as portas para o totalitarismo que, transmudando os conceitos para o ambiente laboral, anula qualquer bom funcionamento, o labor prazeroso e o crescimento em um ambiente organizacional. No totalitarismo ocorrem a estagnao temporal fora da perspectiva conservadora, espaos de dominao contra a ascenso da liberdade, estagnao de espaos sociais por fora da dominao unvoca e a perspectiva de continuidade do poder violento sobre outro. Arendt (2012) lembra que o totalitarismo ocaso simultneo da autoridade e da liberdade.

O autoritarismo tem como centralidade o princpio da autoridade, mas sob determinado vis em que se estabelecem relaes antagnicas: comando e obedincia incondicional, estrutura profundamente hierrquica e desigualdade entre os homens, excluso ou reduo mxima de participao e restries a aes libertrias, emprego de meios coercitivos para impor obedincia e privao de liberdades. Em decorrncia, frequente o autoritarismo presente em ditadura e sistemas totalitrios em oposio democracia e cujas fronteiras no so bem evidentes, mas se quedam instveis em diferentes contextos.

Dentro de uma organizao, ho que se definir claramente os conceitos de autoridade, autoritarismo e relaes de poder. Paula (2022, p. 163) esclarece que a autoridade se contrape coero pela fora (autoritarismo) e se assenta na persuaso por argumentos objetivos. Qualquer relao autoritria entre aquele que manda e aquele que obedece, no se assenta na razo comum, nem no poder de quem manda, mas na prpria hierarquia, reconhecida como legtima por ambos e que predetermina o lugar de cada um. No mundo contemporneo, a perda da autoridade ratifica a etapa final de um processo que tanto tempo tem solapado a humanidade.

Por outro lado, segundo Bobbio, Matteucci e Pasquino (1998), em seu significado mais geral, poder indica a capacidade ou possibilidade de algum agir, produzir efeitos e tanto pode referir-se a indivduos quanto a grupos humanos ou objetos e fenmenos naturais, ou seja, poder a capacidade de ao e de produo de efeitos sobre si, sobre os outros e sobre o ambiente (BRAGHIN, 2017). Poder no se limita, porm, a uma definio, posto que se trata de termo polissmico. H, todavia, consenso de que poder no poder sobre os outros, mas surge com os outros; no mantido dentre do agente, mas extrapola para outros agentes, reside entre agentes quando atuam juntos: o poder sempre relacional (REED, 2014).
Como a autoridade se fundamenta no livre consentimento, ela (a autoridade), diferentemente das relaes oriundas da sndrome do pequeno poder, proporciona um equilbrio na relao entre a liberdade e obedincia nas relaes humanas de poder e proporciona estabilidade duradoura: portanto, no se concebe autoridade pela violncia, uma vez que a autoridade existe alm do poder e outorgada por opo (MOREIRA, 2016).

No se contesta, no entanto, que lidar com pessoas invadidas pela sndrome do pequeno poder dificlimo. Essas pessoas tm uma enorme dificuldade em estabelecer limites de convivncia. A partir do momento em que tenha enxergado no outro uma ameaa ao seu suposto poder, ela no medir aes ou modos para fazer valer a sua ilusria autoridade (MARCARINI 2017).Considera-se que o poder verdadeiro emana do saber que se transforma em habilidades, capacidades, competncias: quanto mais se sabe sobre algo, mais poder se estabelece sobre isso e, nas relaes humanas, esse saber se deve pautar no respeito com o outro, pelo carter tico e moral e pelo compartilhamento por quem o detm.

As relaes de poder na atualidade so construdas por uma rede complexa de relaes, com base no conhecimento partilhado, em boa convivncia com as tecnologias. Entretanto, medida se amplia o conhecimento, aumenta-se potencialmente a responsabilidade, especialmente quando se tomam decises. Em qualquer empresa, mesmo vigorando uma estrutura de cooperao, existe uma hierarquia de poder: na posio de mediador das relaes, um lder capaz de garantir equilbrio e produtividade na organizao preza por valores, princpios ticos e necessidades coletivas.

Contrariamente ao poder legitimamente estruturado, a sndrome do pequeno poder valoriza o individualismo e, em decorrncia, pode insuflar o caos. Nesta situao, instaura-se a prevalncia dos interesses pessoais, marcadamente egocntricos; originam-se crises de autoridades, atitudes prepotentes, ambies desmedidas. Dessa forma, qualquer empresa, ainda que se estruture na cooperao, necessita de um lder mediador das relaes e seja responsvel por garantir que haja organizao, equilbrio e produtividade (MARCARINI, 2017), da mesma forma que faa valer valores e respeito pelas necessidades coletivas.

O poder necessrio para dar norte, equilbrio, mas tambm para sugerir e impulsionar mudanas e vencer obstculos: transformar eis a palavra de ordem e do significado do poder. As caractersticas e o carter de quem o exerce que vo modular as aes e os resultados. Sabe-se que o comportamento abusivo bem caracterstico do detentor do pequeno poder deve ser detido. Abusa aquele que faz mau uso do poder que tem ou imagina ter: muitas vezes, o indivduo (em qualquer esfera da vida), para garantir o poder, no pensa no outro, nas consequncias que possa vir a causar: nesse cenrio, nenhuma relao interpessoal aceitvel sobrevive, uma vez que est baseada em posturas de dominao e explorao.

Sob o ponto de vista da Psicologia, a sndrome do pequeno poder refere uma postura de autoritarismo adotada por um indivduo, quando lhe conferido um poder, por menor que seja. Ele o utiliza de forma absoluta, imperativa, autoritria, sem dar ouvidos aos problemas das pessoas de seu convvio. Geralmente, sugere um indivduo insatisfeito que, ao obter sua pequena parcela de poder, exorbita sua autoridade e tenta agir alm de sua competncia. Azevedo e Guerra (1989) afirmam que esta sndrome engendra processos de dominao e explorao interpessoais, o que caracteriza o pequeno poder como uma pequenez que interfere nas relaes interpessoais, particularmente acentuadas no ambiente organizacional que demanda hierarquia de funes e poder.

Diversos problemas concorrem para esse comportamento, entre os quais podem ser citados a formao patriarcal, percepo do adulto como medida e centro das aes e submisso nas relaes de gnero, alm de outras formas de autoritarismo presentes na sociedade atual, sutis e veladas, ou francamente expostas, como corporativismos, ativismo direcionado a certos grupos humanos, burocracia exacerbada nos atendimentos, autoritarismo na execuo de determinadas funes (porteiros para a entrada e sada de pessoas, por exemplo). Para a Psicologia, o problema central reside no desrespeito legislao, no abuso de autoridade (pensada em grau acima do real), em qualquer perturbao do sossego da sociedade ou de um indivduo, apenas para mencionar algumas situaes. Piana e Bezerra (2019, p. 203) explicam que a sndrome do pequeno poder uma relao desigual de poder, uma correlao de foras em algum procura exercer poder maior sobre o outro, em uma relao exercida do mais forte sobre o mais fraco.

Geralmente, entre os indivduos mais suscetveis sndrome esto aqueles com baixa inteligncia emocional, pouco autoconhecimento e os insatisfeitos com a posio que ocupam na organizao. Exemplo tpico de insatisfao o colaborador que, embora no tenha conseguido a pretendida promoo, fantasia a realidade e se prope uma autoridade hipottica, mas tomando-a como se fosse real, geralmente com o propsito de obter status perante os olhares alheios e vivenciar um poder de que no dispe. Tal comportamento decorrncia da nsia de comandar ou da influncia de referncias ou conceitos deteriorados sobre hierarquia e comando.

Na organizao, o colaborador se exercita em sucessivas sndromes de pequeno poder crendo que possa vir a encarnar a figura do poder pleno. Na verdade, ele exorbita o pequeno poder, caracterstica da sndrome, e revela sua extrema fragilidade: ao tentar agigantar seu poder no faz seno apequen-lo ainda mais. Entretanto, a sndrome do pequeno poder tem consequncias nefastas para as pessoas por ela atingidas e para as organizaes (SAFFIOTI, 1989, p. 19), cujo ambiente local propcio para a manifestao dessa sndrome que acaba por revelar aumento da intolerncia, abusos de poder e violncia, desrespeito e explorao (OLIVEIRA; MARTINS, 2007).

A ajuda para esses casos pode vir da cooperao, do entendimento sincero, do dilogo franco sobre a realidade do poder na organizao, sem arrogncia e sem atitudes de humilhao em auxiliar. No se deve afastar o colaborador autoritrio sem antes propor uma conversa franca e objetiva sobre a questo: deve-se diminuir a autoestima do outro para que esse outro possa crescer, sem imputar-lhe qualquer tipo de humilhao ou preconceito: entende-se que poderiam ser altamente destrutivos para toda a equipe da organizao o preconceito, a humilhao, a falta de colaborao tanto quanto a persistncia do comportamento autoritrio do indivduo com sndrome do pequeno poder.


REFERNCIAS

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