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Sabado, 28 de Janeiro de 2023

Desigualdades e estigmas prolongam pandemia de Aids

01/12/2022 as 08:15 | Brasil | Agncia Brasil
Atingir o compromisso global de encerrar a pandemia de aids at 2030 passa pelo combate s desigualdades e estigmas que acompanham essa emergncia de sade pblica desde o seu surgimento, h 41 anos, destaca o relatrio Desigualdades Perigosas, divulgado esta semana pelo Programa das Naes Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) para marcar o Dia Mundial de Luta Contra a Aids, celebrado hoje (1). Especialistas e ativistas reforam que, mesmo com o avano dos medicamentos disponveis, a discriminao contra grupos vulnerves e pessoas que vivem com HIV reduz o acesso sade, impede o diagnstico precoce e causa mortes por aids que poderiam ser evitadas com tratamento.

Em mensagem divulgada para marcar a data de combate doena, o secretrio-geral das Naes Unidas, Antnio Guterres, alertou que o mundo ainda est distante de eliminar a Aids at 2030 e afirmou que as desigualdades perpetuam a pandemia da doena.

"So necessrias melhores legislaes e a implantao de polticas e prticas voltadas para eliminar o estigma e a discriminao que afetam as pessoas que vivem com HIV, sobretudo aquelas em situao de vulnerabilidade. Todas as pessoas tm o direito de ser respeitadas e includas", disse.

Segundo o Unaids, 38,4 milhes de pessoas viviam com HIV em todo o mundo em 2021. Esse nmero maior que a populao do Canad ou que a soma de todos os habitantes dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Brasil, o nmero de pessoas vivendo com HIV passava de 900 mil no ano passado, de acordo com o Ministrio da Sade, e, desse total, cerca de 77% tratavam a infeco com antiretrovirais. A efetividade do tratamento disponvel gratuitamente no pas reiterada pelo percentual de 94% de pessoas com carga viral indetectvel entre as que fazem uso dos medicamentos contra o HIV. Quando o paciente em tratamento atinge esse nvel de carga viral, ele deixa de transmitir o HIV em relaes sexuais.

Desde o incio da pandemia de Aids, em 1980, at dezembro de 2020, o Brasil j teve mais de 1 milho de casos da doena, que causaram 360 mil mortes. A taxa de deteco vem caindo no Brasil desde o ano de 2012, quando houve 22 casos para cada 100 mil habitantes. Em 2020, essa proporo havia chegado a 14,1 por 100 mil, o que tambm pode estar relacionado subnotificao causada pela pandemia de covid-19.

HIV ou Aids?
O vrus da imunodeficincia humana (HIV) um agente infeccioso que pode entrar no corpo humano por meio do sexo vaginal, oral e anal sem camisinha; por meio do uso de seringas e outros objetos cortantes ou perfurantes contaminados; pela transfuso de sangue contaminado; e da me infectada para seu filho durante a gravidez, o parto e a amamentao, se no for realizado o tratamento preventivo. Quando se instala no corpo humano, esse vrus tem um tempo prolongado de incubao, que pode durar vrios anos, e sua atividade ataca o sistema imunolgico, responsvel por defender o organismo. Se essa infeco no for detectada e controlada a tempo com o uso de antirretrovirais, o HIV pode enfraquecer as defesas do corpo humano a ponto de causar a Sndrome da Imunodeficincia Humana (aids). Portanto, a sigla HIV se refere ao vrus, e a sigla Aids, doena causada pelo agravamento da infeco pelo HIV.

O uso de preservativos masculinos e femininos e gel lubrificante esto entre as principais aes preventivas contra o HIV. Tambm j esto disponveis a Profilaxia Pr-Exposio (PrEP), que consiste no uso de antirretrovirais para prevenir a infeco caso a pessoa venha a ser exposta ao vrus, e a Profilaxia Ps-Exposio (PEP), que pode impedir a infeco caso seja administrada at 72 horas aps a exposio. Mesmo no caso de haver uso dessas profilaxias, a camisinha continua importante, pois previne tambm outras infeces sexualmente transmissveis, como a sfilis e as hepatites virais.

Ao menos 30 dias aps uma possvel exposio ao HIV, fundamental fazer um teste para a deteco do vrus, exame que pode ser realizado em unidades da rede pblica e nos centros de Testagem e Aconselhamento (CTA). O diagnstico precoce da infeco e o incio rpido do tratamento protegem o sistema imunolgico da pessoa infectada, j que esse ser o alvo do HIV quando a carga viral aumentar.

Diretor mdico associado de HIV da GSK/ViiV Healthcare, Rodrigo Zili explica que os antiretrovirais usados hoje para o tratamento das pessoas que vivem com HIV so menos txicos para o corpo humano, causam menos efeitos colaterais e so administrados em quantidade bem menor de comprimidos. A farmacutica a fornecedora do Dolutegravir e outros medicamentos usados no Sistema nico de Sade (SUS) para combater o vrus. Desde 1996, o Brasil distribui gratuitamente os antirretrovirais a todas as pessoas que vivem com HIV e necessitam de tratamento, contando atualmente com 22 medicamentos em 38 apresentaes farmacuticas diferentes.

O tratamento hoje muito menos txico. Nem se usa mais a palavra coquetel, porque no um conjunto enorme de remdios como se tinha antigamente. E, se a pessoa descobre o HIV a tempo de no ter desenvolvido a imunodeficincia, ela tem chance muito grande de ter uma vida totalmente normal tomando remdios diariamente, afirma o infectologista. Ele refora que a pessoa com HIV pode ter expectativa de vida at maior do que pessoas que no foram infectadas pelo vrus. Essa pessoa que est em tratamento est acompanhando todas as doenas praticamente. Ento, ela faz check-ups peridicos, faz exames peridicos, tem aconselhamento para manter um estilo de vida saudvel, e acaba podendo ter uma vida mais saudvel do que algum que no tem HIV e no faz acompanhamento mdico.

Mesmo com esses avanos no tratamento contra o HIV e a disponibilidade gratuita dos medicamentos, o acesso sade ainda marcado por desigualdades, pondera Zili. Por mais que se tenha um programa 100% pblico, o acesso informao e aos servios no totalmente igualitrio, lembra o infectologista.

Questes sociais
O coordenador do Grupo Pela Vidda-RJ, Mrcio Villard, avalia que o combate teraputico Aids avanou mais do que a superao dos preconceitos que afetam as pessoas que vivem com HIV. Mesmo com medicamentos menos txicos e uma expectativa de vida maior, questes sociais afastam pessoas com HIV de uma vida plena.

Quando a gente fala em qualidade de vida, no pode entender somente a questo teraputica e biomdica. preciso tambm entender as questes sociais que envolvem a pessoa com HIV, porque enfrentamos ainda muitos problemas relacionados a estigmas, preconceitos e excluso social que interferem na qualidade de vida, afirma. "O que acontece que o HIV sempre traz consigo uma condenao. De alguma forma, a sociedade vai te condenar, seja pelo seu estilo de vida, seja pela sua orientao sexual, seja por voc pertencer a um determinado grupo da sociedade. Praticamente ningum escapa, at uma criana que nasce com HIV vai ser estigmatizada por isso. Infelizmente, esse cenrio no mudou".

O ativista explica que a estigmatizao das pessoas com HIV tem razes ligadas LGBTfobia, j que os primeiros surtos de HIV se deram na populao homossexual, bissexual e transexual nos Estados Unidos, e a imprensa da dcada de 80 reforou a associao entre a populao LGBTI e o HIV, chamando a aids at mesmo de cncer gay.

Isso comeou nos Estados Unidos, se espalhou pelo mundo e acabou virando um selo. Aqui no Brasil, at o ano passado, homossexuais no podiam doar sangue, independentemente de ter ou no o vrus.

O Pela Vidda-RJ foi fundado em 1989 pelo socilogo e ativista Hebert Daniel e atua desde ento na luta por direitos das pessoas que vivem com HIV. s 11h de hoje, o grupo vai promover ato pblico na Praa Mau, no centro do Rio de Janeiro, com o tema Viver com o HIV possvel. Com o preconceito, no. Entre as principais demandas atuais da populao que vive com HIV, Villard conta que esto a assistncia jurdica para garantir direitos previdencirios e trabalhistas. Os problemas incluem processos seletivos que eliminam candidatos que testam positivo para HIV, enquanto essa testagem vedada por lei em qualquer exame admissional, peridico ou demissional. Fora esses direitos, as pessoas com HIV tambm procuram a organizao no governamental para receber acolhimento afetivo.

A maior dificuldade ainda a questo do estigma. Quando a pessoa tem esse diagnstico, ela tem dificuldade de lidar com ele. E, ao se colocar para a famlia, no trabalho e para os amigos, vai enfrentar discriminao. So raros os casos em que a pessoa consegue viver tranquilamente, independentemente de sua sorologia.

Angstia e cura
A dificuldade de encontrar informao e acolhimento depois do diagnstico foi o que moveu o influenciador Joo Geraldo Netto a compartilhar sua experincia na internet desde 2008.

"Inicialmente, eu falava de uma maneira mais oculta, no falava especificamente que eu vivia com o vrus. Mas a eu senti a necessidade de falar sobre isso mais abertamente. Eu descobri que, falando, eu me curava de certa forma. Sentia algo muito positivo quando falava sobre os dramas, os medos que eu tinha de fazer tratamento, de morrer, de adoecer. E eu vi que aquilo era muito bem recebido. Isso foi me dando fora", conta.

O jornalista acrescenta que a maioria das pessoas que entram em contato nas redes sociais est angustiada, seja porque acredita que se exps ao risco de infeco ou porque j recebeu o diagnstico e est tentando lidar com ele. Joo Geraldo acredita que o peso social do HIV afasta as pessoas do teste e do diagnstico precoce, porque muitas no se percebem parte de um suposto grupo social que poderia ser infectado e outras preferem no saber o resultado do teste por medo.

A questo do preconceito algo to forte que atrapalha de fazer o teste, de procurar ajuda e tratamento e impede que a pessoa tome o medicamento todo dia. Ento, o grande problema do HIV hoje no mais um problema clnico, um problema social, diz. As pessoas que chegam ao meu canal mais angustiadas so aquelas que passaram por situao que consideram moralmente errada e acreditam que uma punio para elas. E a pior punio que elas conseguem imaginar uma doena como a Aids. Ento, isso muito doloroso, sabe? Porque voc v que est conversando com uma pessoa que acha que a pior coisa que pode acontecer na vida o que voc tem.

Em suas postagens nas redes sociais, o influenciador comenta sobre HIV e temas do dia a dia e de sua vida pessoal, como fotos de viagens, reunies com amigos e declaraes de amor ao namorado. Em um de seus perfis, chamado Superindetectvel, ele deixa a seguinte mensagem: Respira fundo! Pela frente ainda tem muito mundo. Agora pode não estar, mas tudo pode ficar bem.
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