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Sexta, 29 de Setembro de 2023

O Estudo da Subjetividade na Formao do Profissional da Sade

18/07/2022 as 21:31 | Fernandpolis | Andr Marcelo Lima Pereira
Os servios de assistncia sade na atualidade referem uma demanda crescente, cujos usurios se queixam de maus tratos e deficitrio tratamento de que so vtimas, ao mesmo tempo em que se propaga a denncia de aspectos negativos desses atendimentos (HOGA, 2004). A assistncia sade, todavia, requer uma ateno multidimensional (dimenses sociais, coletivas, subjetivas), isto , uma abordagem direcionada a diversas perspectiva se um olhar holstico norteado e alinhado a uma filosofia organizacional que, por sua vez, se deve guiar por princpios claramente estabelecidos e viveis na prtica.

A esse olhar subjaz a percepo de que a assistncia sade necessita da participao interdisciplinar, uma vez que nenhuma categoria profissional, atuando isoladamente, capaz de contemplar o todo humano na vivncia do processo sade-doena. Uma dessas perspectivas ocupa-se da dimenso subjetiva do profissional a qual impacta a relao entre profissionais e usurios do setor sade(FIGUEIREDO; BARBOSA; RODRIGUES, 2018).

Brasil (2006, p. 8) referenda que um dos aspectos de destaque quando se avaliam os servios prestados em sade o despreparo dos profissionais e demais trabalhadores para lidar com a dimenso subjetiva que toda prtica de sade supe, o que reflete na precria interao nas equipes e despreparo para lidar com a dimenso subjetiva nas prticas de ateno. Brasil (2013, p. 8) pontua que, ligado a esse aspecto [dimenso subjetiva], um outro que se destaca a presena de modelos de gesto centralizados e verticais, desapropriando o trabalhador de seu prprio processo de trabalho e no considerando as subjetividades presentes na assistncia em sade. Dessa forma, a valorizao da dimenso subjetiva do profissional em sade (mdico, assistente social, psiclogo, enfermeiro, tcnicos etc.), em todas asprticas de ateno e de gesto no SUS, articulando subjetividade e sade, constituiuma faceta importanteda assistncia, do relacionamento interpessoal com os clientes e entre os profissionais. H que se reconhecer, todavia, que a fragmentao e a verticalizao dos processos de trabalho esgaram as relaes entre os diferentes profissionais da sade e entre estes e os usurios; o trabalho em equipe, assim como o preparo para lidar com as dimenses sociais e subjetivas presentes nas prticas de ateno, fica fragilizado (BRASIL, 2004, p. 5).

O foco da dimenso subjetiva, pois, no uma abordagem relacionada ao estado fsico (clnico), mas ao corpo psquico-emocional, interioridade (da equipe de profissionais de sade e usurios) que esto intimamente ligados ao processo de adoecimento: esta conexo possibilitaria um fluxo adequado de conhecimentos e de energia entre ambos, to necessrios ao processo de cuidar. Mori e Gonzlez Rey (2012, p. 143) entendem que subjetividade no equivalente ao psicolgico, mas forma de realidade qualitativamente diferente de outras formas de realidade [...] que reitera seu carter multidimensional. Assim considerada, a subjetividade um sistema complexo composto por dois espaos permanentes e inter-relacionados: o individual e o social, interagindo de forma recproca e, ao mesmo tempo, cada um est constitudo pelo outro (GONZLEZ REY, 2012). Subjetividade significa a singularidade caracterstica do ser humano e diferencia um indivduo do outro: representa o modo particular e nico de como cada indivduo compreende sua existncia (ROSAL, 2016). Assim, a subjetividade individual representa os processos e as formas de sua organizao que ocorrem nos sujeitos individuais e produz reflexos na atuao do profissional em sade na clnica, considerando que cada sujeito tem uma vivncia subjetiva especfica e nica do processo de doena e adoecimento, agravos, morte, perdas(MORI; GONZALS REY, 2012).

A subjetividade individual vem expressa nos comportamentos, nas atitudes, no desejo, naspercepes de mundo, cuja produo espelha conexes variadas entre diferentes instncias [...] e incluem esferas individuais, coletivas e institucionais, que atribuem subjetividade a caracterstica de ser plural (PIVOTO et al., 2017, p. 1651). Embora os sistemas dominantes busquem homogeneizar as subjetividades, enquadrar os sujeitos em sistemas pre estabelecidos, modelizar o prprio desejo para manter o que est institudo, cabe-lhes produzir sentidos novos e gerar mudanas nos contextos. A subjetividade dos profissionais de sade parece estar atrelada negao, culturalmente aceitvel, em que a atuao do profissional obedece a uma lgica e a uma dinmica de trabalho moldada pela cultura organizacional das instituies a qual direciona a assistncia em sade como forma de cumprimento mecnico de tarefas e procedimentos, execuo de rotinas e atendimentos objetivos externos, replicando estados de conformismo e adaptao s normas estabelecidas. Assim visto, o trabalho em sade tende a gerar formas automticas de atendimento, afetar a motivao profissional e contribuir para manter determinaes externas sem possibilidade de criar e transformar a realidade, rompendo com o institudo.

Diante do cenrio de criao e respeito s subjetividades (do profissional de sade e usurio), faz-se mister uma abordagem sobre a formao desses profissionais para o atendimento a seus usurios (clientes/pacientes). A maioria dos estudantes dos cursos de profissionalizao em sade, nas mais diferentes especialidades (medicina, odontologia, enfermagem, psicologia, psicanlise, assistncia social etc.), no conhece a realidade complexa requerida para a sua formao: as idealizaes, alimentadas durante o perodo de preparao vestibular e ingresso no curso de sua escolha, podem ser abandonadas ao longo do tempo de academia, medida que se percebem as grandes exigncias impostas, no decorrer do curso, por parte de professores e colegas, prospectando requisies ou imposies futuras. Barbosa et al. (2021, p. 64) reiteram que, na prtica da enfermagem, por exemplo, tanto quanto em outras profisses da rea da sade, trabalha-se principalmente com a percepo do corpo na esteira do modelo biomdico. Embora a assistncia seja baseada em perspectivas do cuidado integral, as intervenes que aludem subjetividade remontam ao jargo queixa conduta e so abandonadas ou no efetivadas.

Inmeras so as dificuldades com que esses estudantes se deparam: excesso de contedo terico, rendimento abaixo do esperado (contrastando com a autoimagem antes do ingresso na universidade) e o discurso perverso e aterrorizante de alguns professores, que reiteram a necessidade de dedicao total ao estudo, como pr-requisito para tornar-se um bom profissional (BRANCO, 2015, p. 49). Tal discurso, que veicula condies valorativas da profisso e traduz uma experincia subjetiva, muitas vezes desconectada da realidade, percebido como fonte de sofrimento discente abalroando a formao humanstica do aluno, contrariamente s prticas pedaggicas que deveriam ensinar habilidades e no somente como ser um profissional tcnico de sade: no encontro pedaggico com o impacto subjetivo por ele proporcionado, que o estudante se transforma em um profissional, e esse longo caminho de formao tambm um longo caminho de produo de subjetividades (RIOS, 2010, p.277). A academia, preocupada com a transmisso do conhecimento-informao e da dimenso tecnolgica, deixa para trs a formao humanstico-cientfica, a formao de um campo de vivncias constitutivas da subjetividade. Por sua vez, a prtica de assistncia mdica, gerenciada por modelos das organizaes que prestam servios em sade, com reduo mxima das subjetividades, est estruturada de modo a contemplar a relao entre instituio mdica e doena, ignorando a criao de vnculos subjetivos (humanidade, confiana, afetividade etc.) um tecnicismo que termina por aderir ideia da ausncia do humano e das subjetividades, valorando o corpo fsico cuja doena deves ser tratada.

Goulart, Gonzlez Rey e Patio Torres (2019) criticam a universidade, como instituio, quando, em primeiro plano, se tornou uma mquina de produo sem vida, tecnicista e higienista, burocratizando seus processos e instrumentalizando as relaes para reproduzir apenas o que, ao invs de criar envolvimento e afeto, cria sofrimento, dor e morte. A universidade no acata a subjetividade na formao do profissional da sade, colocando armadilhas subjetividade no contexto do gerencialismo e da mercantilizao da educao (SILVA et al., 2020, p. 3) e intensifica, no cotidiano universitrio de forma articulada a objetificao das relaes, que oblitera o potencial das singularidades pela normatizao e pela reproduo, excluindo, consequentemente, a riqueza das nossas diferenas (TORRES, 2020, p. 11) pontuadas pelas singularidades individuais.

Neste espectro, embora ainda ocupe lugar subliminar nas instituies de sade em geral, subordinadas ao modelo biomdico de trabalho clnico, as aes do psiclogo devem ser orientadas mudana e ao desenvolvimento da subjetividade, no apenas centrado na psicoterapia como processo dialgico relacional com o indivduo, mas transpor essa relao e atuar sobre a condio social das pessoas, seu modo de vida e o contexto dentro do qual realizam suas atividades (GONZALZ REY; GOULART; BEZERRA, 2016, p. s60). A subjetividade representa uma construo terica com implicaes nas diferentes reas de prtica profissional em sade, das cincias sociais e da psicologia em particular, uma vez que confere ao indivduo uma maneira prpria de olhar o mundo. Nesse sentido, o papel do psiclogo dentro das organizaes se rege por atuar como facilitador e conscientizador do exerccio a ser desempenhado pelos vrios grupos que compem a instituio, considerando a sade e a subjetividade dos indivduos, a dinmica da empresa e a sua insero no contexto mais amplo da organizao (ROSAL, 2016).

O profissional de sade deve aprender que as subjetividades so o denominador comum que caracteriza a humanizao em todas as suas instncias e dimenses: a ambincia e o acolhimento, a cultura institucional, a gesto participativa, o cuidado. Rosal (2016, p. 50) pondera que acolher implica assegurar a expresso da subjetividade do paciente na situao de usurio do sistema de sade [que] precisa ser tratado a partir de sua individualidade, e no a partir da massificao de procedimentos. Cada indivduo tem uma histria e, portanto, necessidades especficas.

Em todas essas perspectivas, a considerao s singularidades dos envolvidos nas prticas (profissionais e usurios) produz a intersubjetividade como palco de processos ativos de compreenso e envolvimento nas aes de sade (RIOS, 2010): a constituio de um campo de intersubjetividade do profissional de sade e seu paciente. O processo de ensinar e aprender o oficio de cuidar inerente formao em sade, coloca o professor em um campo de conhecimentos e de prticas desafiadoras para parar e pensar o corpo no discurso da subjetividade: nos processos de formao de profissionais devem ser produzidas mudanas significativas nos estilos de conceber a vida e a profisso nos cenrios do cuidado (SILVA et al., 2019).

Para Rosal (2016, p. 17), quando o profissional da rea de sade compreende a importncia da subjetividade, dispe de meios de integrao assertiva com seu paciente/cliente, medida que se habilita a respeitar as diferenas, tornando nica e singular a pessoa diante da formao da sua individualidade, o que explica por que os pacientes/clientes reagem de forma diferente s questes apresentadas pela equipe de sade e a natureza das emoes.

Varela et al. (2016, p. 40) destacam que as demandas sociais atuais e as necessidades de sade da populao no podem ser contempladas por uma formao profissional rgida, presa a uma grade curricular centrada, apenas, em aquisies cognitivas, engessada a conhecimentos e procedimentos tcnicos, mas que seja orientada no sentido de ampliar os cenrios de aprendizagem na prtica profissional e suprir o despreparo de profissionais diante da complexidade do servio e frente subjetividade que toda prtica de ateno sade exige. No se deve supervalorizar a tcnica e menosprezar as subjetividades inerentes prtica profissional em sade, fragilizando a formao desses profissionais.

necessrio aprofundar-se a viso das subjetividades individuais e sociais, imprescindveis para romperas rotinas frias, sem sentidos e valorizar o sentido subjetivo do trabalho dos profissionais de sade. Se, por um lado, a produo de subjetividades singulares em ambientes de ateno sade frustra a interiorizao dos princpios estabelecidos pelas instituies que exaltam indivduos normatizados, por outro, rompe com sistemas sem significados: as subjetividades de profissionais e usurios se conectam por uma assistncia humanizada e com significados, em que se consideram diferentes e pontuais estados psquicos e emocionais originrios da interao de profissionais de sade e usurios, que vo alm da doena do corpo fsico. O sentido subjetivo estudado, por meio das expresses emocionais e simblicas do sujeito e permite [...] construir indicadores de suas configuraes psquicas ou de sua organizao psicolgica tanto no processo de adoecer quanto de constituio da sade (MOURA; PERES; GONZALZ REY, 2011,p. 174), o que permitiria compreender e explicar os complexos registros do sujeito com relao ao seu processo de adoecer e de constituir sade: esses sentidos subjetivos ultrapassam as tramas da enfermidade e do continuidade s vivncias do sujeito.

A singularizao da subjetividade, portanto, viabiliza transformaes que superam os quadros institudos e arranjos organizados nos contextos de trabalho (PIVOTO et al., 2017, p. 1656), e sustenta as manifestaes mentais, volitivas e emocionais, que valorizam o trabalho dos profissionais que prestam ateno sade.

REFERNCIAS

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