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Sábado, 13 de Agosto de 2022

O Estudo da Subjetividade na Formação do Profissional da Saúde

18/07/2022 as 21:31 | Fernandópolis | André Marcelo Lima Pereira
Os serviços de assistência à saúde na atualidade referem uma demanda crescente, cujos usuários se queixam de maus tratos e deficitário tratamento de que são vítimas, ao mesmo tempo em que se propaga a denúncia de aspectos negativos desses atendimentos (HOGA, 2004). A assistência à saúde, todavia, requer uma atenção multidimensional (dimensões sociais, coletivas, subjetivas), isto é, uma abordagem direcionada a diversas perspectiva se um olhar holístico norteado e alinhado a uma filosofia organizacional que, por sua vez, se deve guiar por princípios claramente estabelecidos e viáveis na prática.

A esse olhar subjaz a percepção de que a assistência à saúde necessita da participação interdisciplinar, uma vez que nenhuma categoria profissional, atuando isoladamente, é capaz de contemplar o todo humano na vivência do processo saúde-doença. Uma dessas perspectivas ocupa-se da dimensão subjetiva do profissional a qual impacta a relação entre profissionais e usuários do setor saúde(FIGUEIREDO; BARBOSA; RODRIGUES, 2018).

Brasil (2006, p. 8) referenda que um dos aspectos de destaque quando se avaliam os serviços prestados em saúde é o “despreparo dos profissionais e demais trabalhadores para lidar com a dimensão subjetiva que toda prática de saúde supõe”, o que reflete na “precária interação nas equipes e despreparo para lidar com a dimensão subjetiva nas práticas de atenção”. Brasil (2013, p. 8) pontua que, “ligado a esse aspecto [dimensão subjetiva], um outro que se destaca é a presença de modelos de gestão centralizados e verticais, desapropriando o trabalhador de seu próprio processo de trabalho” e não considerando as subjetividades presentes na assistência em saúde. Dessa forma, a valorização da dimensão subjetiva do profissional em saúde (médico, assistente social, psicólogo, enfermeiro, técnicos etc.), em todas aspráticas de atenção e de gestão no SUS, articulando subjetividade e saúde, constituiuma faceta importanteda assistência, do relacionamento interpessoal com os clientes e entre os profissionais. Há que se reconhecer, todavia, que a “fragmentação e a verticalização dos processos de trabalho esgarçam as relações entre os diferentes profissionais da saúde e entre estes e os usuários; o trabalho em equipe, assim como o preparo para lidar com as dimensões sociais e subjetivas presentes nas práticas de atenção, fica fragilizado” (BRASIL, 2004, p. 5).

O foco da dimensão subjetiva, pois, não é uma abordagem relacionada ao estado físico (clínico), mas ao corpo psíquico-emocional, à interioridade (da equipe de profissionais de saúde e usuários) que estão intimamente ligados ao processo de adoecimento: esta conexão possibilitaria um fluxo adequado de conhecimentos e de energia entre ambos, tão necessários ao processo de cuidar. Mori e González Rey (2012, p. 143) entendem que subjetividade “não é equivalente ao psicológico, mas forma de realidade qualitativamente diferente de outras formas de realidade [...] que reitera seu caráter multidimensional”. Assim considerada, a subjetividade é um sistema complexo composto por dois espaços permanentes e inter-relacionados: o individual e o social, interagindo de forma recíproca e, ao mesmo tempo, cada um está constituído pelo outro (GONZÁLEZ REY, 2012). Subjetividade significa a singularidade característica do ser humano e diferencia um indivíduo do outro: representa o modo particular e único de como cada indivíduo compreende sua existência (ROSAL, 2016). Assim, a subjetividade individual representa os processos e as formas de sua organização que ocorrem nos sujeitos individuais e produz reflexos na atuação do profissional em saúde na clínica, considerando que cada sujeito tem uma vivência subjetiva específica e única do processo de doença e adoecimento, agravos, morte, perdas(MORI; GONZALÉS REY, 2012).

A subjetividade individual vem expressa nos “comportamentos, nas atitudes, no desejo, naspercepções de mundo”, cuja produção espelha “conexões variadas entre diferentes instâncias [...] e incluem esferas individuais, coletivas e institucionais, que atribuem à subjetividade a característica de ser plural” (PIVOTO et al., 2017, p. 1651). Embora os sistemas dominantes busquem homogeneizar as subjetividades, enquadrar os sujeitos em sistemas pre estabelecidos, modelizar o próprio desejo para manter o que está instituído, cabe-lhes produzir sentidos novos e gerar mudanças nos contextos. A subjetividade dos profissionais de saúde parece estar atrelada à negação, culturalmente aceitável, em que a atuação do profissional obedece a uma lógica e a uma dinâmica de trabalho moldada pela cultura organizacional das instituições a qual direciona a assistência em saúde como forma de cumprimento mecânico de tarefas e procedimentos, execução de rotinas e atendimentos objetivos externos, replicando estados de conformismo e adaptação às normas estabelecidas. Assim visto, o trabalho em saúde tende a gerar formas automáticas de atendimento, afetar a motivação profissional e contribuir para manter determinações externas sem possibilidade de criar e transformar a realidade, rompendo com o instituído.

Diante do cenário de criação e respeito às subjetividades (do profissional de saúde e usuário), faz-se mister uma abordagem sobre a formação desses profissionais para o atendimento a seus usuários (clientes/pacientes). A maioria dos estudantes dos cursos de profissionalização em saúde, nas mais diferentes especialidades (medicina, odontologia, enfermagem, psicologia, psicanálise, assistência social etc.), não conhece a realidade complexa requerida para a sua formação: as idealizações, alimentadas durante o período de preparação vestibular e ingresso no curso de sua escolha, podem ser abandonadas ao longo do tempo de academia, à medida que se percebem as grandes exigências impostas, no decorrer do curso, por parte de professores e colegas, prospectando requisições ou imposições futuras. Barbosa et al. (2021, p. 64) reiteram que, na prática da enfermagem, por exemplo, tanto quanto em outras profissões da área da saúde, “trabalha-se principalmente com a percepção do ‘corpo’ na esteira do modelo biomédico. Embora a assistência seja baseada em perspectivas do cuidado integral, as intervenções que aludem à subjetividade remontam ao jargão ‘queixa conduta’” e são abandonadas ou não efetivadas.

Inúmeras são as dificuldades com que esses estudantes se deparam: excesso de conteúdo teórico, rendimento abaixo do esperado (contrastando com a autoimagem antes do ingresso na universidade) e o discurso perverso e aterrorizante de alguns professores, que “reiteram a necessidade de dedicação total ao estudo, como pré-requisito para tornar-se um bom profissional” (BRANCO, 2015, p. 49). Tal discurso, que veicula condições valorativas da profissão e traduz uma experiência subjetiva, muitas vezes desconectada da realidade, é percebido como fonte de sofrimento discente abalroando a formação humanística do aluno, contrariamente às práticas pedagógicas que deveriam ensinar habilidades e não somente como ser um profissional técnico de saúde: é no encontro pedagógico com o impacto subjetivo por ele proporcionado, que o estudante se transforma em um profissional, e “esse longo caminho de formação é também um longo caminho de produção de subjetividades” (RIOS, 2010, p.277). A academia, preocupada com a transmissão do conhecimento-informação e da dimensão tecnológica, deixa para trás a formação humanístico-científica, a formação de um campo de vivências constitutivas da subjetividade. Por sua vez, a prática de assistência médica, gerenciada por modelos das organizações que prestam serviços em saúde, com redução máxima das subjetividades, está estruturada de modo a contemplar a relação entre instituição médica e doença, ignorando a criação de vínculos subjetivos (humanidade, confiança, afetividade etc.) – um tecnicismo que termina por aderir à ideia da ausência do “humano” e das subjetividades, valorando o corpo físico cuja doença “deves ser tratada”.

Goulart, González Rey e Patiño Torres (2019) criticam a universidade, como instituição, quando, em primeiro plano, se tornou uma máquina de produção sem vida, tecnicista e higienista, burocratizando seus processos e instrumentalizando as relações para reproduzir apenas o que, ao invés de criar envolvimento e afeto, cria sofrimento, dor e morte. A universidade não acata a subjetividade na formação do profissional da saúde, colocando armadilhas “à subjetividade no contexto do gerencialismo e da mercantilização da educação” (SILVA et al., 2020, p. 3) e intensifica, “no cotidiano universitário de forma articulada a objetificação das relações, que oblitera o potencial das singularidades pela normatização e pela reprodução, excluindo, consequentemente, a riqueza das nossas diferenças” (TORRES, 2020, p. 11) pontuadas pelas singularidades individuais.

Neste espectro, embora ainda ocupe lugar subliminar nas instituições de saúde em geral, subordinadas ao modelo biomédico de trabalho clínico, as ações do psicólogo devem ser orientadas à mudança e ao desenvolvimento da subjetividade, não apenas centrado na psicoterapia como processo dialógico relacional com o indivíduo, mas transpor essa relação e “atuar sobre a condição social das pessoas, seu modo de vida e o contexto dentro do qual realizam suas atividades” (GONZALÉZ REY; GOULART; BEZERRA, 2016, p. s60). A subjetividade representa uma construção teórica com implicações nas diferentes áreas de prática profissional em saúde, das ciências sociais e da psicologia em particular, uma vez que confere ao indivíduo uma maneira própria de olhar o mundo. Nesse sentido, o papel do psicólogo dentro das organizações se rege por atuar como facilitador e conscientizador do exercício a ser desempenhado pelos vários grupos que compõem a instituição, considerando a saúde e a subjetividade dos indivíduos, a dinâmica da empresa e a sua inserção no contexto mais amplo da organização (ROSAL, 2016).

O profissional de saúde deve aprender que as subjetividades são o denominador comum que caracteriza a humanização em todas as suas instâncias e dimensões: a ambiência e o acolhimento, a cultura institucional, a gestão participativa, o cuidado. Rosal (2016, p. 50) pondera que “acolher implica assegurar a expressão da subjetividade do paciente na situação de usuário do sistema de saúde [que] precisa ser tratado a partir de sua individualidade, e não a partir da massificação de procedimentos. Cada indivíduo tem uma história e, portanto, necessidades específicas”.

Em todas essas perspectivas, a consideração às singularidades dos envolvidos nas práticas (profissionais e usuários) produz a intersubjetividade como palco de processos ativos de compreensão e envolvimento nas ações de saúde (RIOS, 2010): a constituição de um campo de intersubjetividade do profissional de saúde e seu paciente. O processo de ensinar e aprender o oficio de cuidar é “inerente à formação em saúde, coloca o professor em um campo de conhecimentos e de práticas desafiadoras para parar e pensar o corpo no discurso da subjetividade”: nos processos de formação de profissionais devem ser produzidas mudanças significativas nos estilos de conceber a vida e a profissão nos cenários do cuidado (SILVA et al., 2019).

Para Rosal (2016, p. 17), quando o profissional da área de saúde compreende a importância da subjetividade, dispõe de meios de integração assertiva com seu paciente/cliente, à medida que se habilita a respeitar as diferenças, tornando única e singular a pessoa diante da formação da sua individualidade, o que “explica por que os pacientes/clientes reagem de forma diferente às questões apresentadas pela equipe de saúde” e a natureza das emoções.

Varela et al. (2016, p. 40) destacam que as demandas sociais atuais e as necessidades de saúde da população “não podem ser contempladas por uma formação profissional rígida, presa a uma grade curricular centrada, apenas, em aquisições cognitivas”, engessada a conhecimentos e procedimentos técnicos, mas que seja orientada no sentido de ampliar os cenários de aprendizagem na prática profissional e suprir o “despreparo de profissionais diante da complexidade do serviço e frente à subjetividade que toda prática de atenção à saúde exige”. Não se deve supervalorizar a técnica e menosprezar as subjetividades inerentes à prática profissional em saúde, fragilizando a formação desses profissionais.

É necessário aprofundar-se a visão das subjetividades individuais e sociais, imprescindíveis para romperas rotinas “frias, sem sentidos” e valorizar o sentido subjetivo do trabalho dos profissionais de saúde. Se, por um lado, a produção de subjetividades singulares em ambientes de atenção à saúde frustra a interiorização dos princípios estabelecidos pelas instituições que exaltam indivíduos normatizados, por outro, rompe com sistemas sem significados: as subjetividades de profissionais e usuários se conectam por uma assistência humanizada e com significados, em que se consideram diferentes e pontuais estados psíquicos e emocionais originários da interação de profissionais de saúde e usuários, que vão além da doença do corpo físico. O sentido subjetivo é “estudado, por meio das expressões emocionais e simbólicas do sujeito e permite [...] construir indicadores de suas configurações psíquicas ou de sua organização psicológica tanto no processo de adoecer quanto de constituição da saúde” (MOURA; PERES; GONZALÉZ REY, 2011,p. 174), o que permitiria compreender e explicar os complexos registros do sujeito com relação ao seu processo de adoecer e de constituir saúde: esses sentidos subjetivos ultrapassam as tramas da enfermidade e dão continuidade às vivências do sujeito.

A singularização da subjetividade, portanto, viabiliza transformações que superam os quadros instituídos e “arranjos organizados nos contextos de trabalho” (PIVOTO et al., 2017, p. 1656), e sustenta as manifestações mentais, volitivas e emocionais, que valorizam o trabalho dos profissionais que prestam atenção à saúde.

REFERÊNCIAS

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