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Terca, 27 de Fevereiro de 2024

Por falta de absorvente, 1 a cada 5 jovens deixa de ir escola

07/02/2022 as 06:00 | Brasil | UOL
Ao menos 20% de jovens de 14 a 24 anos que menstruam j deixaram de ir escola por no terem absorvente. Entre pessoas pretas com renda de at dois salrios mnimos, o nmero sobe para 24%.

Os dados fazem parte de uma pesquisa feita pelo Espro (Ensino Social Profissionalizante), organizao que oferece capacitao para jovens em busca do primeiro emprego, e a Inciclo, marca de coletores menstruais.

O levantamento, obtido com exclusividade pelo UOL, ouviu 2.930 pessoas que menstruam e 805 que no menstruam. A margem de erro de 2% e o ndice de confiabilidade da pesquisa de 99%.

O problema da pobreza menstrual tem se intensificado nos ltimos anos. Dados do Unicef (Fundo das Naes Unidas para a Infncia) mostram, por exemplo, que mais de 700 mil meninas vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em suas casas. Alm disso, mais de 4 milhes no tm acesso a itens bsicos de cuidados menstruais.

No ano passado, o presidente Jair Bolsonaro (PL) chegou a vetar um projeto de lei que previa a distribuio gratuita de absorventes ntimos em escolas pblicas, para moradores de rua, presidirias e outras pessoas em situao de vulnerabilidade. No entanto, com a repercusso da deciso, o governo recuou da deciso.

"Nosso trabalho contra a pobreza menstrual no deve ser focado apenas na distribuio de absorventes, mas tambm em garantir questes como saneamento bsico e conhecimento do tema entre meninas e meninos", explica Amanda Sadalla, cofundadora da Serenas, organizao que atua nesta e em outras questes ligadas a mulheres e meninas.

A pesquisa tambm mostra um outro problema: 42% das pessoas j ficaram mais do que o tempo indicado com o absorvente para economizar dinheiro. O ndice sobe para 45% entre as pessoas pretas com at 2 salrios mnimos.

Pelo menos 32% declararam que j aconteceu de no terem dinheiro para comprar absorvente. "Ns no temos um cruzamento desses dados com o impacto da pandemia, mas sabemos que quem teve mais impacto negativo durante esse perodo foram as mesmas pessoas: negras, pobres", explica Alessandro Saade, superintendente executivo do Espro.

A estudante Nathalia Gomes, 19, conta que sempre esteve prxima desse assunto, mas havia muita vergonha de falar sobre determinadas questes. "Estudei em escola pblica, ento cheguei a ter contato com pessoas que pediam emprestado, no falavam abertamente da necessidade, mas com o tempo a gente entende que existia", explica.

Para Nathalia, a deciso inicial de vetar o projeto que distribuiria absorventes ntimos foi equivocada. "A gente no menstrua porque escolhe, a gente assim e por a gente ser assim deveria ter [absorvente] para todo mundo", defende.

Stefania Molina, tambm cofundadoras da Serenas, explica que o trabalho dos municpios e estados j significa um grande avano. "Ter um projeto a nvel nacional essencial e muito mais efetivo, mas no podemos deixar de comemorar os pequenos passos para chegar no objetivo que queremos [o fim da pobreza menstrual]", disse.

A reportagem entrou em contato com jovens que precisaram faltar escola pela falta de absorvente, mas por constrangimento elas no aceitaram dar entrevista.

Ana Beatriz Barbosa, 15, estuda em uma escola em Camaari, na Bahia, e contou que j ouviu relatos de diferentes colegas de sala com problemas financeiros para comprar absorvente.

Depois de um projeto dentro da escola, desenvolvido pela diretora Ediclia Pereira Dias, ela passou a entender melhor o problema.

"No imaginava que do meu lado havia meninas faltando uma semana por ms na escola pela falta de absorvente", conta.

A diretora criou um banco de absorventes na escola para estudantes que menstruam. A deciso aconteceu em 2010, quando Edicleia precisou entender o motivo da alta evaso escolar no colgio.

Apesar de no ter vivenciado nenhuma situao extrema, Ana Beatriz beneficiada do projeto. " incrvel participar do programa e ver que as meninas no precisam mais faltar por um motivo como esse", comemora a estudante.
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