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Domingo, 03 de Dezembro de 2023

Antgenos podem ajudar no tratamento de doena de pele

30/09/2021 as 22:00 | Estado de So Paulo | Da Redaao
Durante suas aulas na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, a professora Sandra de Moraes Gimenes Bosco costuma dizer que a pitiose uma doena tropical negligenciada at mesmo pela lista de doenas tropicais negligenciadas da Organizao Mundial da Sade (OMS), que enumera 20 molstias que acometem sobretudo populaes pobres e no possuem tratamentos eficazes. O grupo da pesquisadora acaba de trazer mais visibilidade enfermidade que caracterizada por feridas na pele e ocorre tanto em humanos quanto em cavalos e outros animais ao identificar sete potenciais antgenos que podem ajudar no diagnstico e no tratamento.

Resultados do trabalho, apoiado pela FAPESP (Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo), foram publicados no Journal of Fungi.

Encontramos sete antgenos comumente encontrados no soro sanguneo de equinos e humanos que tiveram pitiose. So protenas com uma antigenicidade alta, ou seja, que tm grande capacidade de serem reconhecidas pelo sistema imune. Alm disso, em simulaes computacionais, essas molculas foram detectadas por linfcitos B, clulas do sistema imune responsveis pela produo de anticorpos. Por isso, so bastante promissoras para o diagnstico da doena, explica Jssica Luana Chechi, primeira autora do estudo, realizado durante seu doutorado no Instituto de Biocincias de Botucatu (IBB-Unesp), sob orientao de Bosco.

uma doena de diagnstico, tratamento e prognstico bastante complexos. Pode ser erroneamente diagnosticada como infeco por fungo zigomiceto, porque os organismos so morfologicamente parecidos, mas o causador da pitiose no responde aos antifngicos existentes. Por isso, a infeco s pode ser tratada com a retirada em extenso e profundidade da leso. Dependendo da regio do corpo afetada, porm, no h muita margem para a cirurgia e o desfecho pode ser a amputao do membro acometido em humanos ou, no caso dos cavalos, o sacrifcio, explica Bosco, professora do IBB-Unesp que coordenou o estudo.

O trabalho integra projeto apoiado pela FAPESP e coordenado pela pesquisadora. Foi parcialmente realizado durante estgio de pesquisa de Chechi na Universidade Mahidol, na Tailndia.

Falso fungo

O agente causador da pitiose o oomiceto Pythium insidiosum, um falso fungo. Visto num microscpio, o organismo bastante parecido com os fungos. Embora tenha outras semelhanas na reproduo e no ciclo de vida, na verdade pertence a outro reino. Da parte da explicao por no responder aos medicamentos antifngicos disponveis no mercado. Na sua forma sistmica, a doena pode causar ocluso de artrias e levar morte.

O P. insidiosum vive em ambientes de gua parada e suas clulas reprodutoras (zosporos) adentram o tecido de plantas aquticas ou de feridas previamente existentes em mamferos, onde seu ciclo de vida continua. No Brasil, bastante comum em cavalos, sobretudo no Pantanal, mas ocorre em outras regies. Em 2019, por exemplo, um surto acometeu cinco cavalos em apenas nove dias em propriedades rurais prximas ao rio Tiet, na regio de Botucatu.

Curiosamente, na Tailndia, o primeiro caso relatado em um cavalo ocorreu apenas em 2018. No pas do sudeste asitico, a pitiose considerada uma doena ocupacional, pois afeta principalmente plantadores de arroz, com leses nas pernas que levam amputao dos membros. Um nico caso em humanos foi relatado no Brasil at hoje, em 2002, embora os pesquisadores desconfiem que outros relatos s no ocorreram devido ao desconhecimento dos profissionais de sade sobre a doena.

A prpria Bosco conta que s teve conhecimento da pitiose no fim de seu doutorado, em 2002. Na ocasio, chegou ao laboratrio onde realizava seus estudos uma amostra de pea cirrgica retirada de um homem internado no Hospital das Clnicas de Botucatu com uma grave leso na perna. Vrios tratamentos haviam sido tentados e chegou-se a cogitar a amputao, mas depois de uma ampla cirurgia na regio a infeco foi controlada.

Foi a que isolamos daquela amostra o que achvamos ser um fungo. Quando sequenciamos uma regio especfica do DNA e comparamos com um banco de dados, o resultado apontou para o P. insidiosum. Comeou a meu interesse por ele, lembra Bosco, que mdica veterinria e, ao longo dos anos, realizou outros diagnsticos do tipo em cavalos e ces.

Alm do desconhecimento acerca da doena, a inexistncia de antgenos (protenas que servem como biomarcadores da infeco) um dos maiores obstculos para diagnosticar a pitiose. Apenas aps uma srie de procedimentos laboratoriais onerosos e demorados possvel identificar com preciso o agente infeccioso.

Antgenos

Para encontrar os antgenos no trabalho atual, os pesquisadores primeiro isolaram o P. insidiosum a partir das feridas de cavalos infectados. Em seguida, o oomiceto foi exposto ao soro do sangue de 22 cavalos e dez humanos que haviam desenvolvido a doena anteriormente, respectivamente no Brasil e na Tailndia.

Em testes desse tipo, espera-se que os anticorpos criados pela infeco prvia se liguem s protenas do agente infeccioso. Soro sanguneo de equinos e humanos saudveis foram usados como controle, a fim de garantir que as protenas encontradas so especficas da infeco pelo falso fungo.

Foram detectados diversos antgenos que responderam ao isolado, mas sete chamaram a ateno dos pesquisadores, entre outras caractersticas, por serem reconhecidos tanto em cavalos quanto em humanos. Entre as protenas encontradas esto algumas que desempenham papel crtico em vrios processos biolgicos envolvendo o estresse celular relacionado a mudanas de temperatura; outras so essenciais no desenvolvimento do P. insidiosum, pelo papel que exercem na formao da parede celular. H ainda outras duas que interagem com clulas de defesa (macrfagos).

Agora, as pesquisadoras de Botucatu pretendem purificar algumas dessas protenas para testar seu potencial como marcadores para testes diagnsticos ou mesmo para o desenvolvimento de novas vacinas. Atualmente, existe um imunizante para a pitiose desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), em parceria com a Embrapa Pantanal.

A Pitium-Vac, porm, tem uso teraputico e no para prevenir a doena. obtida a partir de um macerado do oomiceto, portanto, com antgenos totais, e no especficos como os encontrados no estudo atual.

No mundo ideal, teramos um teste imunocromatogrfico que poderia diagnosticar a doena com apenas uma gota de sangue. Muita pesquisa ainda ser necessria para isso, mas j demos o primeiro passo, encerra Chechi.

O artigo Prospecting Biomarkers for Diagnostic and Therapeutic Approaches in Pythiosis pode ser lido em: https://www.mdpi.com/2309-608X/7/6/423/htm.
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