Pessoas fisicamente ativas respondem melhor vacina contra Covid - regiaonoroeste.com
Sabado, 28 de Janeiro de 2023

Pessoas fisicamente ativas respondem melhor vacina contra Covid

15/08/2021 as 12:00 | Estado de So Paulo | Da Redaao
Manter um estilo de vida fisicamente ativo pode ser uma estratgia para turbinar a resposta imune induzida por vacinas contra a COVID-19. Essa a concluso de um estudo feito com 1.095 voluntrios por pesquisadores da Universidade de So Paulo (USP) e colaboradores. Os dados foram divulgados, ainda sem reviso por pares, na plataforma Research Square.

O benefcio proporcionado pela atividade fsica foi observado principalmente entre os participantes que se mantinham ativos ao menos 150 minutos por semana e no apresentavam comportamento sedentrio, ou seja, no passavam mais de oito horas dirias sentados ou deitados. Considerou-se como tempo ativo tanto aquele dedicado aos exerccios e outras atividades de lazer (caminhada, corrida, dana, natao, passear com o cachorro etc.), como tambm s atividades domsticas (limpar a casa, cuidar do jardim, lavar a roupa na mo), ao trabalho (carregar pesos, realizar consertos) e aos deslocamentos de rotina (andar a p ou de bicicleta at o trabalho, o supermercado ou a escola, por exemplo). O nvel de atividade fsica foi mensurado por meio de entrevistas telefnicas. Foram considerados ativos os voluntrios que relataram ao menos 150 minutos de atividades semanais, somando os vrios domnios analisados.

Uma pessoa que corre durante uma hora todos os dias e passa o resto do tempo sentada em frente a uma tela considerada ativa e sedentria ao mesmo tempo. Ns combinamos esses dois conceitos diferentes em nossa anlise, explica Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina (FM-USP) e primeiro autor do artigo. Quando olhamos para os dados, percebemos claramente que eles formam uma escadinha: no alto, com a melhor resposta vacinal, esto os ativos no sedentrios. Na sequncia, vm os indivduos ativos e sedentrios. Por ltimo, os inativos e tambm sedentrios, conta.

Todos os participantes da pesquisa foram imunizados com a CoronaVac entre fevereiro e maro de 2021. Amostras de sangue para anlise foram coletadas logo aps a aplicao da segunda dose, bem como 28 e 69 dias depois. A qualidade da resposta vacinal foi avaliada por meio de diversos testes laboratoriais, sendo os principais aqueles que mensuram a produo total de anticorpos contra o SARS-CoV-2 (IgG total) e a quantidade especfica de anticorpos neutralizantes (NAb) aqueles capazes de impedir a entrada do vrus na clula humana.

De acordo com o critrio adotado pelos pesquisadores, atingiram a chamada soroconverso os voluntrios que no exame de IgG total apresentaram pelo menos 15 unidades arbitrrias (UA) de anticorpos por mililitro (mL) de sangue. No caso dos anticorpos neutralizantes, considerou-se uma resposta positiva quando, no ensaio in vitro feito com o plasma sanguneo, observou-se ao menos 30% de inibio da ligao entre o SARS-CoV-2 e o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2, na sigla em ingls) protena existente na superfcie de algumas clulas humanas qual o vrus se conecta para viabilizar a infeco.

Anlise dos dados

Como informa Gualano, o objetivo primordial do projeto de pesquisa de qual seu artigo fruto era avaliar a segurana e a efetividade da CoronaVac em portadores de doenas reumticas autoimunes, entre elas artrite reumatoide, lpus eritematoso sistmico, artrite psoritica, vasculite primria e esclerose sistmica. Grande parte desses pacientes faz uso de medicaes que reduzem a atividade do sistema imune e, portanto, uma resposta vacinal mais fraca era esperada.

Um primeiro trabalho publicado na Nature Medicine, sob a coordenao da professora da FM-USP Elosa Bonf, confirmou a segurana da vacina e mostrou que ela induz uma resposta aceitvel, ainda que reduzida, nesse grupo de pacientes (leia mais em: agencia.fapesp.br/36470/).

Neste segundo estudo, buscamos avaliar a hiptese de que um estilo de vida ativo poderia fortalecer a resposta vacinal tanto na populao de imunossuprimidos quanto em indivduos sem doena autoimune. E de fato isso que nossos dados indicam, diz Gualano, que coordena um Projeto Temtico financiado pela FAPESP relacionado ao tema.

Foram includos na anlise final 898 pacientes imunossuprimidos. Desses, 494 foram classificados como ativos e 404 como inativos. Alm disso, como uma espcie de grupo controle, participaram 197 voluntrios sem doena autoimune 128 ativos e 69 inativos.

Um modelo matemtico foi usado pelos pesquisadores para compensar possveis distores que variveis como idade, sexo, ndice de massa corporal (IMC) e uso de imunossupressores poderiam causar. Isso porque, sabidamente, o funcionamento do sistema imune diminudo em indivduos idosos e em usurios de corticoides e outros moduladores imunolgicos, assim como possivelmente em obesos.

Na comparao ajustada, os pacientes imunossuprimidos fisicamente ativos apresentaram uma chance 1,4 vez maior de atingir a soroconverso.

Dizendo isso de outra forma: para cada dez pacientes inativos que soroconverteram aps a segunda dose da vacina, h 14 pacientes fisicamente ativos que atingiram o mesmo resultado, compara Gualano.

O fato de ser fisicamente ativo tambm foi associado a um aumento de 32% na quantidade de anticorpos contra as regies S1 e S2 da protena spike (S) usada pelo vrus para se conectar ao receptor ACE2 e entrar na clula humana.

A atividade neutralizante [NAb] foi, em mdia, 4,5% maior nos pacientes ativos, mas essa diferena no foi estatisticamente significante, explica o pesquisador.

J entre os voluntrios sem doena autoimune, a chance de soroconverso foi 9,9 vezes maior entre os fisicamente ativos e observou-se um aumento de 26% na quantidade de anticorpos contra a protena spike. Como o nmero de voluntrios era menor nesse subgrupo, os dados referentes aos anticorpos neutralizantes tambm no apresentaram significncia estatstica.

Os resultados nos permitem concluir que a atividade fsica potencializa a resposta vacinal contra a COVID-19 independentemente de fatores como idade, sexo e uso de imunossupressores. Realizar o mnimo de atividade fsica j produz uma resposta positiva, porm, observamos que quanto mais movimento, melhor. As respostas mais consistentes foram vistas entre os pacientes que realizavam 50 minutos ou mais de atividade fsica diariamente, conta Gualano.

Estudos anteriores tambm mostraram que um estilo de vida ativo protege contra o agravamento da COVID-19 e, de modo geral, reduz internaes (leia mais em agencia.fapesp.br/34659/).

A promoo da atividade fsica pelos gestores e formuladores de polticas pblicas algo fundamental. uma interveno barata, fcil de escalar para toda a populao e pode fazer ainda mais diferena no caso de pessoas com sistema imune menos eficiente, como pacientes com doenas autoimunes e idosos, opina Gualano.

Embora s tenham sido avaliados indivduos imunizados com a CoronaVac, o pesquisador considera plausvel que o mesmo efeito seja observado com todas as vacinas contra a COVID-19 e tambm contra outras doenas.

Booster natural

Evidncias da literatura cientfica do conta de que uma nica sesso de exerccios fsicos pode mobilizar bilhes de clulas responsveis por fazer a imunovigilncia do organismo, acordando o sistema imune. So clulas que percorrem os locais usados como porta de entrada pelos patgenos e, ao detectar uma ameaa, recrutam outras clulas de defesa para que ataquem o invasor. Quem se exercita regularmente tambm apresenta nveis mais baixos de inflamao sistmica e de cortisol (o hormnio do estresse), o que contribui para uma resposta imune adequada.

Como relatam os autores no artigo, h estudos associando a prtica de exerccios a uma melhor resposta vacina contra gripe (vrus H1N1, H3N2 e influenza tipo B), contra o vrus da varicela-zoster e contra a doena pneumoccica.

Nossos achados j eram esperados, pois a atividade fsica sabidamente fortalece o sistema imune. De qualquer forma, seria importante confirm-los em um estudo controlado e randomizado, no qual um grupo de voluntrios seria submetido a um protocolo de exerccios antes do perodo de vacinao, enquanto outro grupo-controle, composto por indivduos com caractersticas semelhantes, permaneceria inativo, conta o pesquisador.

O artigo Physical activity associates with boosted immunogenicity of an inactivated virus vaccine against SARS-CoV-2 in patients with autoimmune rheumatic diseases pode ser lido em www.researchsquare.com/article/rs-782398/v1.
MAIS LIDAS
� vedada a transcri��o de qualquer material parcial ou integral sem autoriza��o pr�via da dire��o
Entre em contato com a gente: (17) 99715-7260 | sugest�o de reportagem e departamento comercial: regiaonoroeste@hotmail.com