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Segunda, 29 de Maio de 2023

Minha porta estilhaada. Quem foi?

04/06/2021 as 13:03 | Estado de Mato Grosso do Sul | Valdecir Cremon
Comecinho da madrugada, fazia calor e um quase silncio na rua Amadeu Bizelli, centro de Fernandpolis, em 1 de maro de 2007. E eu dormia no primeiro andar de um prdio meio comercial meio residencial, alugado por meu considerado Waldemar de Mathias, aps mais um dia de intenso trabalho na rdio Difusora, em sites e na edio de comerciais para televiso. Na poca eu tambm escrevia para o Jornal do Interior, ainda sob o comando do amigo jornalista Fernando Miranda, pouco tempo antes da transferncia da empresa para o tambm amigo jornalista Cludio Ferreira.

O quase silncio da madrugada s era quebrado pelo apito do vigia noturno, que passava por l a cada 45, 50 minutos.

Naquela madrugada, porm, algo diferente quebrou o silncio e escapou aos atentos olhos do vigilante noturno das ruas. At mesmo no foi registrado pelo atento vigia de um posto de combustveis, na esquina da rua Rio Grande do Sul.

A porta de vidro do prdio foi estilhaada a golpes de barra de ferro e a campainha foi destruda, certamente na sequncia do ataque. O guarda diz que correu para o local em minutos e o vigilante da rua idem. No viram nada.

O autor do ataque havia sumido, como se pudesse voar, desaparecer na escurido ou, quem sabe, se esconder em algum outro prdio ali perto. Todos eu acho estavam fechados. A rua caracteristicamente comercial, com lojas, uma clnica mdica e o famoso bar do seo Agostinho, com quem fiz boa amizade.

Acordei com o som ensurdecedor das pancadas na porta, a campanha disparada e os guardas tentando entender o ocorrido, bem em frente da minha porta.

Desci e tambm tentei entender. Meu corao disparou e minha cabea ferveu. Logo veio mente outro fato, de um dia antes, em que a fechadura da porta, agora arrebentada, havia sido danificada, possivelmente com um grampo de cabelos ou um clip. Ou seja, o ataque da madrugada era o segundo e, provavelmente, cometido pelo mesmo bandido.

Chamei a Polcia Civil, que registrou tudo, inclusive em fotos pela perita e vereadora Masa Rio, minha amiga. Dias depois procurei a delegacia para dar andamento investigao.

Dei a notcia na rdio Difusora e o reprter Ivan Gomes, meu amigo, fez um flash da porta de casa. O site do jornal O Cidado publicou reportagem (https://bit.ly/2RnrFjf), inclusive com declaraes minhas.

O amigo Carlos Lima o Carlo do Laboratrio havia instalado cmeras de monitoramento em um trecho da Amadeu Bizelli para reforar a segurana de sua empresa. Ele chegou a verificar se a filmadora mais prxima da esquina havia registrado o ataque. Nada. Infelizmente.

Outros amigos estiveram por l e no faltaram suposies sobre os motivos daquilo. Meu posicionamento poltico, sempre crtico e analtico, foi apontado como possvel causa/reao do ataque. Eu, sem nenhuma inocncia, medi a rua de ponta a ponta, incluindo sua largura, para tentar entender como o bandido conseguiu se esconder to rapidamente sem ser visto por dois vigias nem pela cmera do Carlo.

A cidade vivia um momento poltico delicado, especialmente com a infeliz morte do prefeito Rui Okuma, no ano anterior. Na Cmara, o clima era pesado com a atuao controversa de presidentes que perderam o controle da situao e da oposio por mais de uma vez. Um dos assuntos da poca era a renovao de contrato de saneamento bsico com a Sabesp.

Nunca escondi que discordava de aes de polticos da cidade e nunca alisei nenhuma crtica por ser amigo ou ter prestado servios a nenhum deles. Porm, com a prefeitura envolvida em um clima que mistura velrio e uma inexplicvel alegria de grupos que ressentiam a morte de Okuma e do que festejava a posse da ex-vice Ana Bim, alm dos tropeos do Legislativo, no haveria o que se estranhar em surgirem crticas e anlises mais agudas.

Entre um pitaco aqui e ali, um conselho de amigos e at piadas, fui convencido a deixar o inqurito de lado e no tocar a investigao adiante. Consertei a porta, reforcei a vigilncia inclusive no indo mais prefeitura e cmara com a frequncia de antes e logo me mudei de l, grato a Waldemar de Mathias, ao seo Agostinho e aos vizinhos com quem podia trocar algumas conversas de vez em quando.

Mas, aquele ataque nunca saiu da minha cabea. E talvez nunca saia. Volta e meia me lembro, recordo detalhes, penso, repenso, me arrependo de ter abandonado a investigao etc. Claro que tenho suspeitas! At mesmo um gordo mrbido poderia cruzar a Amadeu Bizelli de um lado para outro e se entrar numa sala previamente aberta. Imagine um atleta sarado!

Hoje, pensativo em minha sala de trabalho, em Campo Grande (MS), e bisbilhotando os sites de Fernandpolis, no resisti ao desejo de escrever sobre o ataque. Resisto em no pensar no peso que o bandido da porta carrega em sua conscincia, desde aquela data e, principalmente, pelo que ocorreu com a vida pessoal e pblica de quem no me suportava como jornalista independente.

No vou dar detalhes, mas sei que ele est pagando pelo que fez. a lei da vida.

VALDECIR CREMON
Jornalista e professor universitrio.
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