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Quinta, 28 de Setembro de 2023

Obesidade traz mais riscos na vida adulta para meninas

11/05/2021 as 13:00 | Estado de So Paulo | Da Redaao
Estudo feito com 92 adolescentes sugere que as meninas so mais propensas do que os meninos a desenvolver alteraes metablicas associadas obesidade, entre elas hipertenso e dislipidemia como chamada a elevao dos nveis de colesterol e triglicerdeos no sangue.

A pesquisa foi conduzida com apoio da FAPESP por cientistas do Instituto de Cincias Biomdicas da Universidade de So Paulo (ICB-USP) e da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo. Os resultados foram divulgados em artigo na revista Frontiers in Nutrition.

Segundo os autores, os dados revelam um padro de alteraes no perfil lipdico associado s meninas obesas, quando comparadas a meninas sem sobrepeso. A concluso que as garotas do primeiro grupo tm mais predisposio a sofrer de doenas cardiovasculares na vida adulta.

Observamos que as meninas so muito mais propensas s alteraes tpicas da obesidade, como hipertenso e dislipidemia. Elas apresentaram nveis aumentados de triglicerdeos e LDL, o chamado colesterol ruim, enquanto o HDL, o colesterol bom, foi menor em comparao s meninas eutrficas [sem sobrepeso], revela a biloga Estefania Simoes, primeira autora do trabalho.

O perfil lipdico dos meninos obesos no apresentou diferenas significativas quando comparado com o dos meninos eutrficos, segundo os cientistas.

A obesidade infantil uma preocupao crescente de autoridades sanitrias e estudiosos da rea da sade. Segundo a Organizao Mundial da Sade (OMS), mais de 340 milhes de crianas e adolescentes entre 5 e 19 anos estavam com sobrepeso ou obesos em 2016. bem sabido que a obesidade na infncia pode acarretar distrbios metablicos e doenas cardiovasculares na vida adulta.

Embora a questo venha ocupando cientistas e grupos de pesquisa h algum tempo, a ocorrncia da obesidade na adolescncia sob o ponto de vista das diferenas entre os sexos ainda um tema pouco explorado.

Ns comparamos adolescentes obesos e no obesos entre 11 e 18 anos de ambos os sexos abordando, simultaneamente, medidas antropomtricas, perfil lipdico e lipoproteico, concentrao de hormnios e neuropeptdeos, com foco especial nas respostas dependentes do sexo. At onde sabemos, trata-se do primeiro estudo com essa abordagem multifatorial.

O trabalho recebeu financiamento por meio de dois projetos: Avaliao de anatomia cerebral, mediadores inflamatrios e hormnios reguladores do apetite de pacientes peditricos obesos: um estudo sobre a neurobiologia da obesidade e Inflamao sistmica em pacientes com caquexia associada ao cncer: mecanismos e estratgias teraputicas, uma abordagem em medicina translacional.

Colaboraes

A pesquisa foi realizada em colaborao com o neurologista e psiquiatra Ricardo Riyoiti Uchida, pesquisador que lidera o trabalho e responsvel pelo recrutamento dos 92 adolescentes que participaram do levantamento, no Ambulatrio de Endocrinopediatria da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo. Uchida vem tentando entender, por meio de neuroimagens, se existe alguma alterao nas regies do crebro relacionadas saciedade e ao apetite. outro trabalho que est prestes a sair. O objetivo caracterizar o sistema nervoso central dos pacientes obesos. Ele estuda obesidade adolescente h muitos anos, adianta Simoes.

Alm da coleta de sangue dos pacientes e da aferio da presso sangunea, foram mensuradas as concentraes plasmticas (em jejum) de colesterol total (TC), colesterol de lipoprotena de alta densidade (HDL), colesterol de lipoprotena de baixa densidade (LDL), colesterol de lipoprotena de densidade muito baixa (VLDL) e triglicerdeos (TG). Esse trabalho foi feito pela Santa Casa de Misericrdia de So Paulo. Adicionalmente, foram aplicados vrios questionrios desenvolvidos para identificar os padres alimentares que exibem sinais de dependncia de alimentos ricos em gordura e/ou acar, assim como distrbios alimentares.

Os cientistas mediram, ainda, os neuropeptdeos ligados a alteraes neuro-humorais e descobriram que eles esto bastante alterados nos indivduos obesos. Os neuropeptdeos so liberados em resposta a sinais perifricos (tais como hormnios) para regular o apetite e o equilbrio energtico. Alm disso, a leptina e a insulina interagem com os neuropeptdeos NPY, MCH e α-MSH, no apenas regulando o apetite, mas tambm ativando o sistema nervoso simptico, possivelmente contribuindo para a hipertenso relacionada obesidade, revela Simoes.

De acordo com ela, esses novos dados relativos s diferenas observadas entre meninos e meninas no padro de hormnio, citocinas e neuropeptdeos apontam a necessidade de uma terapia mais direcionada e especfica. Por mais que se queira fazer um tratamento nico, no que diz respeito a frmacos ou suplementao alimentar, o que os dados mostram que talvez no se deva tratar do mesmo modo meninos e meninas, mesmo que eles tenham o mesmo peso e idade. Porque o organismo vai reagir de maneira diferente.

Links

Joanna Correia-Lima, segunda autora do artigo, esclarece que com os dados coletados no mesmo grupo de voluntrios foram desenvolvidos dois artigos. O primeiro, j publicado no International Journal of Obesity, focou a caracterizao do processo inflamatrio dos pacientes, tendo em vista ser a inflamao um processo biolgico marcante na obesidade.

No laboratrio da professora Marlia Seelaender, que tambm assina este segundo artigo na Frontiers in Nutrition conosco, sempre estudamos algo que o oposto da obesidade: a caquexia [em pacientes com enfermidades como cncer e Aids, que perdem muito peso e, principalmente, massa muscular]. Essas duas doenas tm em comum o papel central da inflamao sistmica. Ento, inicialmente, focamos o trabalho na inflamao e, depois, avaliamos e caracterizamos essa outra parte hormonal e como isso est relacionado com a predisposio de desenvolver doenas cardiovasculares.

De acordo com Correia-Lima, os inmeros trabalhos j publicados sobre o tema obesidade adolescente/infantil geralmente abordam um fator especfico que se encontra alterado no obeso (a inflamao ou um determinado hormnio, por exemplo), ou ainda uma consequncia especfica da obesidade, como hipertenso. Mas ns conseguimos conectar esses dados todos. Como tnhamos uma coorte grande e uma boa quantidade de dados coletados, fomos capazes de caracterizar os links existentes em uma mesma populao, ou seja, como se interligam todas as alteraes observadas no organismo obeso. Isso o mais importante desse trabalho: mostrar esses links, diz.

Segundo Simoes, aps a coleta de dados, quando foram realizadas as anlises de correlao estatstica, as pesquisadoras notaram que as ocorrncias observadas nos organismos obesos estavam conectadas umas s outras. Nveis elevados de hormnios como insulina e leptina [o hormnio da saciedade] poderiam ser os causadores da hipertenso, por exemplo. E essas informaes deveriam ser levadas em conta no tratamento da obesidade. muito comum o uso de anti-inflamatrios, que podem minimizar um aspecto da doena, mas interessante saber que h outros fatores colaborando para que o problema ocorra, pois assim se tem a chance de complementar e melhorar o tratamento.

Ela lembra que a obesidade uma doena multifatorial e, por isso, no possui um nico tratamento. Alm de dieta e atividade fsica, os tratamentos podem incluir o uso de medicamentos, a interveno cirrgica e o cuidado psicolgico.

Nas avaliaes feitas por meio do questionrio, j se percebe que existe, naqueles meninos e meninas obesos, um distrbio da alimentao em nvel psicolgico. Por mais que possamos mostrar que existem alteraes nos neuropeptdeos, nos hormnios, na hipertenso ou na inflamao, no fundo, a criana no tem apenas um problema orgnico, mas psicolgico. Da a importncia de estudos sobre a obesidade infantil: diagnosticar a tempo e tratar, para que no vire uma complicao maior na vida adulta, alerta Simoes.

O artigo Sex-Dependent Dyslipidemia and Neuro-Humoral Alterations Leading to Further Cardiovascular Risk in Juvenile Obesity pode ser lido em: www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnut.2020.613301/full.
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