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Quarta, 29 de Marco de 2023

Puxadores

15/04/2021 as 07:07 | Fernandpolis | Srgio Piva
Aconteceu h alguns anos, quando eu queria muito comprar uma escrivaninha pensando em ter um lugar mais confortvel para estudar e mais espao para organizar meus papeis. Vinha juntando dinheiro com esse objetivo havia meses. Quando percebi que o montante era razovel, sa em busca de meu objeto de desejo.

Andei pela cidade, de loja em loja, pesquisando preos e modelos, os mais simples, claro, porque no estava ante um monte, somente de um montante, significando a soma de poucas quantidades. Pesquisa serve para economizar ou encontrar o preo que se encaixa no montante e vice-versa.

Finalmente, depois de muita andana, encontrei uma escrivaninha com boa aparncia e um preo lindo, juno ideal para o momento financeiro vivido por um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco.

A loja fez a entrega conforme combinado. J tinha reservado o espao onde coloca-la e havia separado os objetos que iriam ser arrumados sobre ela para enfeita-la. Ficaria faltando somente uma luminria, meu prximo desejo de consumo.

Minha escrivaninha era marrom, feita de chapas finas de compensado, com desenhos que imitavam madeira slida. A estrutura retangular com pernas em tom claro, que se estendia at a tampa do mvel. Aquelas seguravam os revestimentos e as gavetas: trs laterais sobrepostas e outra maior, com chave, ladeando a primeira das trs e preenchendo o espao restante do topo da escrivaninha.

Os puxadores das gavetas eram redondos, de plstico, com desenhos circulares dourados pequenos, e mnimos, para serem manuseados com os dedos polegar, indicador e mdio.

Respeitando o ciclo da vida, ou seja, formao, continuao, declnio e desintegrao, depois de alguns anos, aquela escrivaninha encontrava-se no terceiro estgio. O passar do tempo, os cotovelos constantes sobre sua armao, o excesso de papis e afins nas gavetas fizeram com que ela comeasse a sentir esse peso. Sem mencionar o despudorado abre-e-fecha gavetal.

Os puxadores quebraram. Sobrou deles apenas um pequeno pedao rolio de plstico duro com pequenas pontas que pareciam facas a furarem meus dedos. Assim, durante meses, abrir as gavetas, era uma verdadeira autoflagelao.

As gavetas mais pesadas dificultavam o processo ainda mais. Faze-las vir para fora com todo aquele peso puxado por um pedacinho de plstico era um exerccio de fora e pacincia, cujo objetivo quase nunca era alcanado, especialmente pela falta do ltimo.

Os dedos escorregavam, as pontas do plstico quase sempre os cortavam. s vezes achava graa da situao, outras, a ira surgia das profundezas do meu ser. Era o dcimo terceiro dos trabalhos de Hrcules.

Esses episdios se repetiram durante meses, at que, um belo dia, resolvi exterminar tal sofrimento da minha vida. Reuni todas as foras e coragem necessrias e sa em busca de puxadores novos.

Na terceira loja de materiais para construo que entrei, achei-os. L estavam eles. No eram de plstico, eram de metal. Bonitos, uma base fixa e outra parte mvel, que se deslocava para cima e para baixo, tambm dourados, imitavam bronze e, mais, custavam uma bagatela, centavos.

Comprei, troquei os puxadores e abri as gavetas centenas de vezes. Como agora era fcil fazer aquilo. Sem esforo, fcil, fcil. Convidava os amigos, a namorada e os parentes para me verem abrir e fechar as gavetas com tanta facilidade. Era como se nunca tivesse sofrido.

A felicidade e alegria custaram poucos centavos e ao diminuta. Restou-me pensar como s vezes simples e custa to pouco eliminar certos sofrimentos da vida. Basta reunir fora e coragem para reagir e substituir tais puxadores de nossas vidas-escrivaninhas.

Srgio Piva
s.piva@hotmail.com
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