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Domingo, 28 de Maio de 2023

Estudo investiga potencial para coronavrus matar linfcitos

18/09/2020 as 00:00 | Estado de So Paulo | Da Redaao
Experimentos conduzidos na Universidade de So Paulo (USP) em Ribeiro Preto indicam que o novo coronavrus capaz de infectar e levar morte diversos tipos de linfcitos clulas-chave na defesa do organismo contra patgenos. No se sabe ainda se h queda na imunidade decorrente desse ataque e qual seria a durao, mas os pesquisadores no descartam a possibilidade de a infeco deixar algum tipo de sequela no sistema de defesa.

Os resultados do estudo, apoiado pela Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo (Fapesp), foram divulgados no repositrio bioRxiv. O artigo est em processo de reviso por pares.

Logo no incio da pandemia percebeu-se que a linfopenia [queda acentuada na contagem de linfcitos do sangue] era uma alterao hematolgica frequente em pacientes com COVID-19 hospitalizados e que esse quadro estava associado a um prognstico ruim, ou seja, maior risco de intubao e morte. Mas at agora no estava claro qual era a causa do problema, conta Agncia Fapesp o virologista Eurico Arruda, professor da Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto (FMRP-USP) e coordenador da investigao.

Autpsias

Segundo o cientista, durante uma infeco viral, esperado que parte das clulas de defesa saia da circulao e migre para o tecido afetado para ajudar no combate aos invasores. Contudo, autpsias de pacientes que morreram em decorrncia da sndrome respiratria aguda grave associada ao vrus (SARS-CoV-2) mostraram que a quantidade de linfcitos presente nos tecidos infectados no era suficiente para explicar o quadro de linfopenia detectado quando essas pessoas ainda estavam internadas.

Certamente deveria haver outro mecanismo envolvido. Decidimos ento investigar se as clulas de defesa de pacientes com COVID-19 tinham o vrus em seu interior. Alguns grupos tinham descrito que a carga viral era praticamente indetectvel no sangue, mas eles tinham olhado para o fluido como um todo. Ns isolamos apenas as clulas mononucleares [grupo que inclui moncitos e linfcitos] e fizemos uma espcie de concentrado de linfcitos, explica o pesquisador.

Antes de analisar os leuccitos de pacientes, porm, os pesquisadores fizeram diversos experimentos com amostras sanguneas de cinco voluntrios saudveis para testar a hiptese de que o SARS-CoV-2 seria capaz de infectar e matar linfcitos.

O concentrado de clulas mononucleares obtido a partir do sangue de doadores sadios foi incubado com o vrus durante dois dias. Com um anticorpo capaz de reconhecer antgenos do vrus no interior das clulas, os pesquisadores comprovaram que o processo de infeco tinha ocorrido.

Anlises

As anlises mostraram que os moncitos foram as clulas mononucleares mais suscetveis ao SARS-CoV-2 (44% estavam infectadas), seguidos pelos linfcitos T CD4 (responsveis por coordenar a defesa imunolgica por meio da liberao de molculas sinalizadoras conhecidas como citocinas; 14%), linfcitos T CD8 (capazes de reconhecer e matar clulas infectadas pelo vrus; 13%) e linfcitos B (os produtores de anticorpos; 7%).

A carga viral no concentrado celular foi medida por RT-PCR o mesmo teste molecular feito para diagnosticar a COVID-19 em pacientes aps seis, 12, 24 e 48 horas. Observou-se um aumento consistente da quantidade de vrus, que chegou a ser 100 vezes maior na ltima anlise. Tal resultado indicava que o microrganismo no apenas tinha entrado nas clulas mononucleares de voluntrios como tambm estava se replicando em seu interior.

Quando tratamos a cultura com um composto capaz de inibir a protease usada pelo SARS-CoV-2 para se replicar, observamos uma reduo importante da carga viral. Esse mais um indcio de que o vrus estava se replicando nessas clulas, mas ainda no sabemos em quais delas exatamente, afirma Arruda Neto.

Inibidor

Em outro experimento, o grupo tentou bloquear a infeco com um inibidor de ACE2 a protena usada pelo microrganismo para entrar na clula humana, normalmente expressa em baixas quantidades nas clulas mononucleares do sangue.

O tratamento com inibidor de ACE2 reduziu a carga viral na cultura, mas no a aboliu totalmente, o que sugere a existncia de um mecanismo alternativo de infeco em clulas linfoides. Isso no algo raro entre os vrus, que podem usar variadas molculas para se ligar a diferentes tipos de clulas, a exemplo de HIV e adenovrus.

Ao investigar mais detalhadamente os linfcitos T CD4 e T CD8 infectados, os cientistas notaram que a entrada do vrus desencadeou um mecanismo de morte celular programada conhecido como apoptose. Segundo Arruda, essa uma possvel explicao para a linfopenia observada em pacientes com COVID-19.

Infeco natural

A etapa seguinte da pesquisa foi feita com clulas mononucleares de 22 pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), com quadros moderados ou severos de COVID-19. O material foi coletado entre os dias 7 de abril e 18 de junho no Hospital das Clnicas da FMRP-USP.

As anlises mostraram que nem todos os indivduos tinham em seus leuccitos uma marcao expressiva para a presena do vrus e que a taxa de clulas positivas variava bastante entre eles de 0,16% a 33,9%. Os pacientes tinham perfis clnicos variados e estavam em diferentes estgios da doena, o que dificultou a comparao. Mas o fato que conseguimos identificar a presena do vrus no interior das clulas mononucleares de portadores da COVID-19, diz Arruda Neto.

O grupo selecionou amostras de 15 indivduos para analisar as diferenas individuais nas taxas de clulas positivas para SARS-CoV-2. Para isso, os pacientes foram estratificados com base no tempo de coleta de amostra aps o incio dos sintomas. Essa anlise evidenciou que as taxas de linfcitos B infectados foram as mais altas em todos os indivduos. Isso poderia ajudar a entender por que algumas pessoas quase no apresentam anticorpos aps a infeco hiptese atualmente em investigao.

J no caso dos moncitos, quanto mais avanada estava a doena, maiores eram as taxas de clulas positivas resultado semelhante ao observado para os linfcitos T CD4.

Tcnicas

Por meio de tcnicas como imunofluorescncia e microscopia confocal, os cientistas confirmaram a presena de uma fita dupla de RNA viral no interior das clulas infectadas um indicativo de que o patgeno, cujo genoma composto por uma fita simples de RNA, estava em processo de replicao.

O conjunto de dados sugere, portanto, que o novo coronavrus pode infectar e se replicar nos linfcitos. Isso um potencial complicador, pois pode deixar o paciente suscetvel a infeces oportunistas e os hospitais esto repletos de bactrias resistentes. Os mdicos precisam estar atentos a esse fato. Alm disso, ainda no sabemos que tipo de efeito tardio isso pode ter no sistema imune, s descobriremos mediante investigaes a serem feitas no seguimento dos pacientes convalescentes, diz Arruda.

A pesquisa tambm recebeu apoio da Fapesp por meio da bolsa de ps-doutorado de Ronaldo Martins, da bolsa de doutorado de Marjorie Pontelli e da bolsa de doutorado de talo Castro. Os trs so autores do artigo (em ingls) que pode ser lido em www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.07.28.225912v2.full.pdf.
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