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Quarta, 29 de Marco de 2023

Estados j apontam falta de remdio para cncer de mama

16/09/2020 as 00:00 | Brasil | Folhapress
Mdicos, pacientes e secretarias de sade apontam baixos estoques e at falta em parte da rede de um medicamento usado para tratamento de um tipo especfico de cncer de mama, o qual afeta at 10 mil pacientes no SUS.

Chamado de trastuzumabe, esse medicamento um anticorpo monoclonal usado em pacientes com cncer de mama HER2 positivo, tipo que corresponde a cerca de 20% dos casos de cncer de mama registrados. Embora agressivo, esse tipo de cncer pode ser curvel em etapas iniciais ou controlvel com o uso do medicamento. Sem ele, porm, h risco de avano da doena. O envio irregular da droga pelo Ministrio da Sade tem preocupado secretarias estaduais de Sade, enquanto pacientes e mdicos j citam desabastecimento em algumas unidades de oncologia.

A reportagem consultou os estados sobre os estoques. De 14 que enviaram respostas, 10 informaram ter recebido quantidade do remdio abaixo da necessria para os meses de julho a setembro, o que baixa os estoques.

Em alguns estados, o atraso na entrega j deixa parte das unidades oncolgicas sem o medicamento, usado por meio de aplicao intravenosa --caso de So Paulo e Bahia, por exemplo, segundo informaes recebidas pela reportagem. A situao tem gerado alerta em organizaes que representam pacientes. A estimativa que 10.570 pessoas usem o trastuzumabe no SUS, segundo o ministrio. S em So Paulo, por exemplo, h 2.350 cadastrados.

Uma delas Mislene Santana, 40, que faz tratamento com trastuzumabe h trs anos como paliativo a um cncer de mama metasttico. Ela conta que, no ltimo dia 1, chegou a ir ao hospital onde faz acompanhamento, mas ouviu que a unidade estava sem a droga.

No caso dela, diz, o tratamento feito com intervalos de 21 a 28 dias, em mdia. Desde a ltima aplicao, no entanto, j se passou um ms e 13 dias --e ainda no h previso. "Estou desesperada. Liguei para todo mundo que podia, e o hospital est na batalha junto, mas o remdio ainda no veio", afirma ela, que procurou o Instituto Oncoguia, que d apoio a pacientes, para informar sobre o desabastecimento. " angustiante. Tive de ir ao mdico pedir um remdio para conseguir dormir."

Desde que o trastuzumabe foi incorporado ao SUS, em 2012, a compra feita pelo Ministrio da Sade, que o repassa aos estados. De l, distribudo para unidades que atendem pacientes com cncer. A oferta do remdio, a princpio voltada a pacientes com cncer de mama inicial e avanado, foi ampliada em 2018 para casos de cncer de mama metasttico.

Segundo a mdica mastologista Maira Caleffi, presidente da Femama (Federao Brasileira de Instituies Filantrpicas de Apoio Sade da Mama), a situao se agrava por ser uma droga sem substitutos no SUS. Em casos iniciais, a nica disponvel. Nos casos de cncer metasttico, associado ao pertuzumabe, ainda em fase de incluso.

" uma droga alvo para uma doena especfica [cncer de mama HER2 positivo] e s ela pode combater e ser usada para esse tipo de clula de cncer. Mas no sabemos at que ponto as pessoas que decidem dentro do governo sabem disso", afirma.

"Se atrasa um ms ou dois, o impacto j dramtico", diz o oncologista Max Mano, membro do comit de cncer de mama da Sboc (Sociedade Brasileira de Oncologia Clnica), para quem a situao traz risco de piora dos quadros.

" um medicamento usado com a quimioterapia ou aps a cirurgia e que tem impacto brutal na reduo da taxa de recorrncia da doena em caso inicial", diz. "No outro extremo, para pacientes com metstase, ele aumenta a sobrevida." Mano lembra que, apesar de ser ainda de custo alto, j h um nmero maior de empresas que fabricam a droga.

Questionado sobre os motivos do atraso na oferta, o Ministrio da Sade disse que o abastecimento "sofreu intercorrncias diante do panorama mundial da pandemia". Segundo a pasta, foram enviados 23 mil frascos para serem repartidos entre todos os estados em agosto. Esse valor corresponderia a 76% da demanda mensal, estimada, segundo a pasta, em 30 mil frascos. O ministrio, porm, no respondeu qual o tamanho da demanda represada.

Secretarias de Sade ouvidas pela reportagem apontam que o valor enviado ainda insuficiente e no atende ao necessrio para o trimestre, calculado de julho a setembro, e cujo planejamento iniciado em maio. Em nota, a Secretaria de Estado da Sade de So Paulo diz que o envio do remdio tem ocorrido de forma irregular pelo governo federal, "impactando na distribuio e assistncia aos pacientes".

De 17 mil frascos solicitados para o trimestre, 5.000 foram entregues no incio de agosto. A pasta diz ter feito nova cobrana ao ministrio na sexta-feira (11). At l, diz organizar medidas de remanejamento entre unidades para diminuir o impacto a pacientes.

Na Bahia, o quantitativo foi de apenas 17% do esperado. "J estamos com desabastecimento do medicamento para unidades de oncologia", informa em nota a pasta estadual. Tambm com s 18% do necessrio recebido, a Secretaria de Sade de Pernambuco diz ter feito uma compra emergencial para atender os pacientes at que o fornecimento seja regularizado.

No Par, de 1.613 frascos esperados para uso entre julho e setembro, foram recebidos s 22, o equivalente a 1,4%.

Outros estados que relatam ter recebido menos doses foram Paran, Gois, Tocantins, Cear, Esprito Santo e Minas Gerais. J Amazonas, Maranho, Rio de Janeiro e o Distrito Federal dizem ter estoques regulares. Ainda segundo as secretarias, parte da entrega em agosto se deu para um medicamento biossimilar, diferente do usado antes, o que exige que o Ministrio da Sade envie novas orientaes para adaptao do tratamento. Essas orientaes, no entanto, ainda no foram disponibilizadas.

Questionado novamente pela reportagem nesta segunda-feira (14), o Ministrio da Sade informou que planeja iniciar a entrega, nesta semana, de mais 29 mil unidades do trastuzumabe. Mais uma vez, no entanto, a pasta no informou o volume em atraso --s em Minas Gerais, por exemplo, a secretaria estadual diz que havia necessidade 15.361 unidades para julho a setembro ainda no entregues.

Em nota, o ministrio disse ainda ter duas compras em andamento "para complementar o atendimento da demanda do trimestre".

Questionada sobre a previso de envio de orientaes para uso do medicamento biossimilar, o ministrio tambm no respondeu. Organizaes que acompanham pacientes questionam a demora da pasta em adotar medidas para evitar desabastecimento.

" um tipo de tratamento que no pode ser interrompido. O ministrio responsvel pela aquisio e no consegue entregar uma demanda que j era previsvel", diz Tiago Mattos, do Instituto Oncoguia.
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