Quarta, 12 de Agosto de 2020

Febre das reformas em casa amplia faturamento da construção

02/08/2020 as 06:50 | Brasil | Folhapress
Barulho de furadeira. Eco do martelo. Aquele zunido durante o corte da cerâmica. Comentários sobre o barulho e efeitos diversos da reforma do vizinho –e às vezes da própria casa– são temas recorrentes na pandemia.

A demanda por pequenas reformas e reparos ganhou força durante o isolamento social e chegou até a contribuir para movimentar a economia e ajudar marginalmente a segurar parte das perdas do setor de construção civil.

O movimento foi no estilo obra formiguinha, jargão do setor para definir pequenos reparos por conta própria ou com a contratação de pequenas empreiteiras e profissionais autônomos.

O ICVA, indicador de varejo da Cielo, dá uma ideia do impulso setor: só na semana de 19 a 25 de julho, o faturamento do setor de materiais de construção subiu 33,1% —o único entre os segmentos de bens duráveis a ter alta no período.

No varejo total medido pelo índice no acumulado de 1º de março a 25 de julho, o faturamento de materiais de construção também foi o segundo que mais cresceu, com aumento de 5,5%. Perdeu apenas para o setor de super e hipermercados, que cresceu 16,1%.

Segundo a coordenadora de projetos da construção do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), Ana Maria Castelo, a tendência de alta acompanhou tanto a adaptação das empresas para realização de trabalho remoto.

"Durante a quarentena, as pessoas se deram conta que precisavam fazer reparos ou reformas na casa e que estavam sendo proteladas, o que impulsionou o setor”, diz ela.

O presidente da Anamaco (Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção), Geraldo Defalco, afirma que também pesou a favor do setor o auxílio emergencial, que contribuiu com a renda. Segundo ele, a venda de materiais cresceu pelo menos 40% na pandemia.

"É um volume acima do normal. As pessoas tinham a preocupação de levar um profissional para dentro de casa por medo do coronavírus e as vendas, principalmente do segmento ‘faça você mesmo’, acabaram ganhando espaço”, afirma.

O isolamento social também trouxe uma mudança no perfil das vendas do setor. Executivos de lojas como Leroy Merlin, Telhanorte e Suvinil afirmam que além de registrarem uma maior demanda por parte do cliente final, notaram vendas mais pontuais ou em quantidades menores.

Segmentos de bricolagem (trabalhos realizados por pessoas não especializadas), arte e decoração, utilidades domésticas e jardinagem também tiveram destaque.

"Todo mundo virou bricolador nessa quarentena”, afirma o diretor da sucursal Tietê da Leroy Merlin, Paulo Cesar Barreiros.

"Tudo ligado a pintura, ferramentas, ferragens, pequenos materiais elétricos e de jardinagem tiveram um crescimento acentuado. As pessoas acabaram descobrindo os escritórios home office e os jardins verticais e estamos muito surpresos com a manutenção desse fluxo de vendas ao longo dos meses”, disse.

Produtos e serviços específicos para o período pandêmico também começaram a ser disponibilizados.

De acordo com o diretor comercial da Telhanorte Tumelero, Rodrigo Pothin, a companhia lançou um programa chamado "ajuda ao vivo”, voltado para o cliente do ecommerce e que oferece materiais que auxiliam na instalação do produto comprado.

"Também já oferecíamos uma série de pequenos serviços e canais, como delivery ou o envio de carros próprios da Telhanorte Tumelero a condomínios para pequenos reparos. Estamos acompanhando esse movimento principalmente no ecommerce, que hoje é o triplo do que víamos antes da pandemia”, afirma.

Dados da Neotrust/Compre&Confie, empresa de inteligência de mercado, apontam que o comércio digital ganhou 5,7 milhões de consumidores entre abril e junho, crescimento de 32,5% em relação a igual período de 2019.

Para o gerente sênior de produtos da Suvinil, Henrique Moreira Ramos, o ecommerce acabou vindo como alternativa para as compras mais rápida pontuais. "A mudança mais evidente foi a busca por soluções mais imediatas. Projetos que estavam deixados de lado, ganharam prioridade. Houve uma ressignificação do morar e do lar e ambientes que antes eram improvisados, viraram definitivos”, diz.

Foi o que aconteceu com o empresário e sócio-fundador da Kyvo, consultoria de inovação, Israel Trancoso Lessak, 30, que decidiu transformar o quarto de visitas do seu apartamento para melhor adaptá-lo ao uso do seu dia a dia.

"Era um quarto que não foi amplamente utilizado e que já começava a me incomodar. Eu queria transformá-lo em um ambiente mais agradável, para que eu pudesse ficar ou receber meus amigos. Tudo foi parte de um processo, e estar em casa o tempo todo também ajudou na concepção desse projeto”, disse.

Ele afirma que pintou as paredes do quarto sozinho, mas que em determinado momento também contou com a ajuda de um profissional para realizar trabalhos específicos, como a reforma de uma das paredes e a instalação de uma rede de balanço.

O maior tempo em casa também foi decisivo para a pequena reforma que o arquiteto e paisagista Thiago Cesario, 33, e sua esposa realizaram em seu hall de entrada.

"Aquele lugar, que virou um cantinho da bagunça por força do hábito, era uma acomodação visual para nós. Como ficávamos a maior parte do dia fora de casa, não ligávamos muito. Mas isso começou a mudar com o home office”, diz.

O mesmo aconteceu com o designer Tito Benício, 31, e seu namorado, Lucas.

"Quando nos mudamos, tínhamos pintado a cozinha de branco para ser um lugar mais neutro. Até que um dia, no começo da quarentena, estávamos jantando e decidimos pintá-la”, declarou.

"Mas foi só a partir do momento em que colocamos uma cor na parede que começou as coisas frenéticas de transformar aquele ambiente. Colocamos luzes embaixo da pia, compramos um armário e decidimos por uma bancada como mesa para ficar mais confortável”, afirmou.

O índice Cielo também indica alívio no setor de móveis, eletro e lojas de departamento entre as primeiras semanas de junho a julho. O segmento reduziu a queda, mas ainda tem retração de 18,8% entre 1º de março a 25 de julho.
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